Pietro Proserpio: “Estar aqui é esquecer que o tempo existe”

Pietro Proserpio: “Estar aqui é esquecer que o tempo existe”

Desde a abertura da livraria Ler Devagar na LxFactory, Pietro Proserpio leva os seus visitantes numa viagem “no tempo e no espaço”, onde lhes dá a conhecer as histórias por trás dos seus “objetos cinemáticos”.

Por Sofia Camilo

Pietro Proserpio é o habitante mais antigo da livraria Ler Devagar. Mecânico e artista, sonhador e contador de histórias, são muitas aquelas que nos conta à medida que percorremos a sua exposição de “Objetos Cinemáticos” que ocupa o segundo piso da livraria, desde que abriu portas na LxFactory.

E como é que a Ler Devagar o encontrou? Pietro já construía os seus “objetos cinemáticos” há 25 anos, mas durante muito tempo teve medo de os mostrar aos outros. Um dia, isso mudou. Foi na televisão que ouviu falar da feira Craft and Design, que decorria no Jardim da Estrela, em Lisboa, e decidiu ir até lá mostrar o seu trabalho aos organizadores. Eles gostaram. Dali, foi andando de feira em feira, uma coisa “que dá um trabalhão dos diabos”, confessa o próprio. Numa delas, foi abordado por um francês “maluco, alto, todo desengonçado”, que deu uma especial atenção às suas “maquinetas”.

Esse francês era Michel. Fazia sapateado e dava aulas de concertina no Conservatório Nacional de Música. E, além disso, “tinha um espaço dele na Fábrica Braço de Prata”. Nesse espaço, Pietro acabou por fazer várias exposições, até se mudar para a LxFactory e se tornar residente permanente daquele espaço onde, segundo Michel, “as maquinetas ficavam muito bem”.

Uma história como a bicicleta – voadora

Pietro Proserpio nasceu em Itália, no ano de 1938, mas viveu a maior parte da sua vida em Portugal. Guarda memórias de uma II Guerra Mundial que também assolou o seu país de origem, memórias essas que, mesmo hoje, são difíceis de esquecer. “Ainda agora durmo com os lençóis em cima da cabeça porque me lembro do barulho dos aviões de guerra”, confessa.

Aos 11 anos, veio para Portugal com os pais, que eram industriais têxteis e pretendiam erguer uma fábrica de veludos no país. Contudo, Pietro nunca foi um homem dos têxteis. Mesmo na sua juventude, “não gostava de fios, gostava das máquinas” que os teciam. “É daí que vem a paixão pela mecânica”, garante.

Quem descobre a Ler Devagar dificilmente fica indiferente à bicicleta branca que se ergue apenas uns passos adiante da porta de entrada, bem no centro da livraria, que tem por pano de fundo uma parede infinita de livros e o ponto preciso em que as escadas metálicas que dão acesso ao primeiro piso se cruzam. O que a maior parte, se calhar, não sabe é que foi Pietro Proserpio, mecânico e inventor de histórias, quem um dia a quis pôr a voar.

“Uma vez, o Michel quis fazer uma exposição que chocasse as pessoas e encheu este piso [o segundo] de lixo. Quando a exposição terminou e retiraram tudo, deixaram ficar uma bicicleta toda ferrugenta. Eu olhava todos os dias para ela e uma vez pensei: ‘Bom… Vou pôr esta bicicleta a voar!’”, conta Pietro. “Puxei-a para baixo, nem sequer a limpei… Pintei-a toda de branco e assim ficou. Fiz-lhe um par de asas, fui ter com o José Pinho [sócio-fundador da livraria] e perguntei-lhe se a podia pendurar ali.”

Mesmo depois de ter a sua Bicicleta pendurada num local central da Ler Devagar, de cada vez que Pietro olhava para ela, sentia que “faltava qualquer coisa…”

Se já são poucos os que sabem que a icónica Bicicleta da Ler Devagar é uma criação – ou, melhor dizendo, uma “recriação” de Pietro – o que se calhar ainda menos pessoas sabem é que foi a esposa do italiano quem lhe acrescentou essa “coisa” que faltava. 

Pietro queria que a bicicleta pertencesse a alguém e, por isso, resolveu que queria acrescentar-lhe uma menina que pudesse andar nela. “A minha esposa formou-se em escultura na Faculdade de Belas Artes. Eu fiz um esquema do que eu queria e ela desenhou a Bicicleta com a menina.”

Pela mulher, companheira de uma vida inteira, apaixonou-se com apenas 14 anos. “Íamos os dois para o Liceu Francês e o Liceu Francês tinha uma camioneta que ia todos os dias buscar-nos e trazer-nos. Fazíamos a viagem juntos todos os dias”, conta, relembrando com carinho esses tempos.

Na altura em que pendurou a Bicicleta na livraria, recorda Pietro, houve quem lhe perguntasse: “Por que é que não pões a Bicicleta a andar para a frente e para trás?”. “Tu estás maluco(a). Alguma vez viste uma bicicleta a andar para a frente e para trás?”, era o que respondia sempre. Contudo, enquanto amante da mecânica e da locomoção que é, fazia-lhe, de facto, falta criar uma peça que pudesse executar esse movimento. Então criou o monociclo, “porque os monociclos andam para trás”, justifica. E daí veio o Sonhador.

“Se o nosso amigo chegasse à Lua, já não era um sonhador. Era o Neil Armstrong”

A cada vez que um olhar curioso se depõe sobre o Sonhador, suspenso no ar no seu monociclo, Pietro apresenta-o da mesma forma: “Aquele nosso amigo é o Sonhador, porque sonha ir à Lua com um chapéu-de-chuva”.

Este Sonhador usa, de facto, um chapéu-de-chuva. E anda para trás e para a frente em direção à Lua, que nunca chega a alcançar. Nesse percurso incessante, que começou nos primórdios da existência desta livraria na LxFactory, encontra outros elementos e personagens suspensas no ar, que fazem parte da sua história.  

“O Sonhador encontrou uma gaivota, também sonhadora, que quis ir com ele à Lua. Descobriu então um navio fantasma do Capitão Gancho”, prossegue Pietro. “Na nuvem apareceu um anjinho…porque os anjinhos gostam muito dos sonhadores.”

Por que é que o Sonhador nunca chega à Lua? Pietro tem sempre resposta pronta para essa questão: “Se o nosso amigo chegasse à Lua, já não era um sonhador. Era o Neil Armstrong.”

É com o Sonhador que Pietro Proserpio começa a narrativa da sua exposição e é com a sua história que nos convida a mergulhar no seu universo criativo de máquinas, enredos, magia e movimento.  Entre monstros e insetos, cidades em miniatura e ventiladores, luzes, sons e materiais reutilizados, as várias peças criadas por Pietro partilham um ponto comum: o seu elemento cinemático.

Histórias que fazem parar o tempo

No campo da Física, “cinemático” é relativo ao movimento mecânico, assim como “cinético”. Na obra de Pietro, encontramos também esta significação, uma vez que todas as suas peças são mecânicas e vivem do movimento gerado por peças, roldanas, circuitos e pela eletricidade.

Contudo, as peças deste “inventor” da Ler Devagar não são “cinemáticas” apenas por causa da Física. “É arte cinética que conta histórias, vai buscar histórias diretamente aos filmes. ‘Cine’ dos filmes e “cinética” da arte cinética, da arte em movimento. Cinemática.” A presença da sétima arte no trabalho de Pietro verifica-se muito em peças como Tempos Modernos (na fotografia), uma referência a um dos clássicos mais célebres com Charlie Chaplin, e ainda numa outra, feita na base de uma referência ao filme Mon Oncle, do realizador francês Jacques Tati.

Surpreendentemente, Pietro revela não ser, na verdade, um grande cinéfilo. Do cinema, o que gosta verdadeiramente é “da parte de contar histórias”.

No entanto, confessa gostar muito de fazer reciclagem – o que se verifica ao longo de toda a sua exposição onde, na verdade, todas as peças foram construídas a partir de peças, objetos e materiais a que, um dia, Pietro quis dar uma nova vida. É o caso do monstro Lope, que foi feito a partir de um guarda-chuva partido (entre outras coisas).

Pietro diz que todas as peças têm nome, porque “todas têm uma história”. Contudo, nem sempre foi assim. O pequeno e desajeitado “monstrinho” Lope apenas teve direito a nome mais tarde. “Há uns tempos, veio aqui um grupo de raparigas espanholas, e uma delas perguntou-me como se chamava o monstro.” conta Pietro. “E eu disse que ele era tão feio que não tinha nome. Então ela disse: ‘Chame-lhe Lope.’ Eu perguntei: ‘Lope porquê?’. ‘É o meu chefe’, disse ela.” E assim ficou o monstro batizado.

As histórias contadas nas palavras de Pietro Proserpio, muitos o dizem, “fazem parar o tempo” na sua exposição. Talvez por isso, uma das temáticas mais presentes no seu universo inebriante seja o tempo. Para Pietro, “o tempo é tudo e não é nada”.

Sobre o processo criativo para compor todo o seu mundo de magia, histórias e mecânica, Pietro diz que o mais importante “são as ideias”.

“As ideias aparecem-me de manhã”, afirma. “Eu acordo sempre às 7:30, fico na sorna, e é nessa horita que aparecem todas as ideias que eu depois desenvolvo.”

“Como nascem as peças? Há dois ou três caminhos. Imagino um movimento mecânico e executo-o. Quando acabei de ter o primeiro movimento mecânico, começo a imaginar a história. A partir desse momento, é a história que conduz a construção da máquina. Ou então decido fazer uma peça sobre determinado tema e a partir daí vou escolhendo as peças para fazer essa máquina.” Um terceiro caminho é encontrar uma peça qualquer e utilizá-la para fazer uma máquina. Pietro coloca a peça à sua frente e começa a imaginar como é que a vai encaixar e como pode desenvolver a sua produção.

“Um ventilador faz vento e o amor é como um vento quente no deserto”

Um bom exemplo de uma obra que começou, precisamente, pela peça em si é aquela com que Pietro escolhe terminar a sua exposição e aquela a que, por teimosia e contradição, gosta de chamar “Amor”.

A ideia veio de uma situação em que um visitante lhe disse que as suas peças, apesar de interessantes, não faziam nada de útil. “Como em Portugal faz um calor de morte, eu fiz um ventilador. Podem crer que não há nada mais útil que um ventilador aqui”, diz.

Contudo, aquele que expõe na livraria Ler Devagar é já o segundo ventilador que fez – o primeiro foi logo vendido. “Fiquei traumatizado porque foi a primeira vez na minha vida em que fiz qualquer coisa de útil. Tive de lhe dar um nome oposto. E o nome mais oposto que encontrei em relação ao ‘útil’ foi o ‘amor’”, conta. Mas era preciso arranjar uma história que suportasse o facto de estar a chamar “Amor” a um ventilador.

“Um ventilador faz vento e o amor é como um vento quente no deserto. São os beijos que o vento dá nas velas dos barcos. E por vezes arrefece, como o vento do norte”, justifica Pietro, adiantando que no primeiro dia em que apresentou a peça com esta história, uma senhora quis logo comprá-la. “Eu acho que ela comprou a história, mas como levou a coisa, por mim tudo bem”, brinca.

Pietro tem a perfeita noção de que não se vive para sempre e assegura que, com a idade que tem, já chegou a preocupar-se com o destino das suas peças, que ama tanto mas, ainda assim, entre as quais não distingue nenhuma favorita. “Quando te casares e tiveres filhos…se te perguntarem qual é o favorito o que é que tu respondes? Que são todos, não é?”, diz, encolhendo os ombros.

Quando lhe perguntam “É feliz aqui?”, a resposta de Pietro é simples, mas clara. “Como toda a minha família diz, sou um homem cheio de sorte. A minha filha até diz que nasci com o cu virado para a lua!” diz, acrescentando: “A minha grande sorte foi ter encontrado a Ler Devagar, porque o contacto com a juventude ajuda-nos a não envelhecer tão depressa”. E, para ele, “estar aqui é esquecer que o tempo existe”.

Jorge Silva: “O designer tem de adivinhar aquilo que vai na cabeça do leitor”

Jorge Silva: “O designer tem de adivinhar aquilo que vai na cabeça do leitor”

Por Diogo Barradas

O livro não se limita às palavras que o habitam. Se o livro for um portal para outra dimensão, a capa é a sua moldura. Jorge Silva sabe-o bem, por estar neste mundo há tantos anos. Designer de comunicação, dedicou-se sobretudo ao design editorial e à direção de arte de diferentes publicações, com destaque para o jornal Combate e O Independente, bem como os suplementos Y e Mil Folhas, do jornal Público. Em 2001 fundou o seu atelier, “Silvadesigners”, que desde então soma projetos de sucesso. Foi, entre 2007 e 2010, diretor de arte do Grupo Editorial Leya onde encontrou “de tudo, desde o Saramago ao chefe Silva”. No mundo do design de livros, o seu atelier foi responsável pelas premiadas capas da coleção Bis, em 2008, bem como pelas mais recentes capas das obras de José Saramago, em 2014. Enquanto o atelier fervilhava, falámos com Jorge numa sala lateral. O homem que se diz colecionador tinha, nesta sala despojada, uma imensa prateleira repleta de livros de diversos tamanhos e feitios. É uma prateleira de consulta e inspiração, da qual se serviu vezes sem conta durante a conversa, para mostrar que, afinal, podemos julgar o livro pela capa.

A capa é o limiar entre o leitor e o livro. Como é trabalhar nessa fronteira?

É uma grande responsabilidade. É muito fácil culpar as capas pela má prestação comercial dos livros ou dos jornais. As capas dos jornais seguem um modelo editorial ou conceptual, que tem a ver com um determinado território de reconhecimento mútuo: é um compromisso com o leitor.

Os livros também procuram criar um conforto com os seus leitores habituais, seja em relação aos autores, aos géneros ou até a própria editora. Embora, no limite, a capa de um livro deva valer por si própria. Tem de jogar com os trunfos todos para poder convencer o leitor a comprar.

Todo o livro quer ter essa ambição de ser universal, mas isso não é verdade. Todos os livros têm um universo de leitores restrito. Um obscuro poeta terá sempre menos leitores do que um blockbuster de aventuras.

Procuramos fazer com que a capa seja justa ao universo de leitores que esse livro tem, mas, por outro lado, tentamos fazer o melhor possível dentro desses limites, com o desejo de fazê-lo chegar a toda a gente. O objetivo é vender o mais possível. Por isso, uma capa errada pode criar um sério prejuízo…

E que desafios surgiram quando trabalharam as capas de um autor implementado, como José Saramago?

O caso do Saramago é um muito particular, por ser um autor universal. Já tínhamos visto toda a espécie de capa para os livros dele, pelo que havia já alguma fadiga.

O desafio era difícil. Por isso, fizemos uma coisa rara no atelier, que é um concurso interno. Por acaso ganhou a minha ideia, que era a menos espetacular. A solução que apresentei era tipográfica, mas tinha por trás uma ideia emocional. Assim, convidámos escritores, amigos de Saramago, para escrever as suas capas. A ideia foi aprovada pela Fundação José Saramago, que sugeriu que não fossem só escritores, mas também arquitetos, artistas e músicos próximos do autor. Esta ideia bastante simples não se parecia com nada que já tivéssemos feito.

Estas capas são de alguma maneira o triunfo do design no capismo de livros. A situação era grave: o mercado estava inundado de Saramagos. Tratou-se, neste caso, de ter uma nova ideia sobre a mesma coisa. Esta abundância de livros dele no mercado significou que pudemos pensar as capas de um ponto de vista autoral do design, apesar de a tipografia em si não ter sido feita por nós, mas pelos amigos de Saramago.

Embora um dos mitos do capismo de livros seja a ideia de que a capa tem de contar uma história, essa expetativa pode ser um pesadelo para os designers. Mas as capas caligráficas dos livros de Saramago não contam nenhuma história.

Estas capas foram aprovadas imediatamente, pela primeira e única vez na minha vida profissional, o que nunca tinha acontecido. É aquilo que eu chamo o crime perfeito: o trabalho oficinal destas capas foi bastante duro, mas ninguém poderia dizer que não gosta da caligrafia do Júlio Pomar, por exemplo, que tipografou uma das capas.

Existe uma incompreensão das editoras em relação às linguagens do design?

Não necessariamente. Por vezes, o que existe é uma incompreensão do designer em relação às linguagens daquele género ou em relação às convenções das editoras. Não penso que de um lado estão os criadores, cuja liberdade e capacidade criativa é inesgotável, e do outro as editoras, com os seus objetivos comerciais, ou a estupidez dos autores. Na realidade, a indústria do livro em Portugal é tão precária que até mesmo os livros comerciais são feitos por amor, porque ninguém ganha dinheiro a fazer livros. Temos que compreender que essas tensões têm uma razão realista.

Há ingredientes imprescindíveis para uma boa capa?

Uma capa tem sempre a ver com o universo do criador. Senão, não conseguimos explicar por que raio é que um livro cujo texto original é do século XVII ou XVIII já teve 500 capas diferentes ao longo dos anos. As capas são diferentes porque as pessoas, em contexto de época ou de lugar, têm interpretações diferentes. No entanto, essa leitura tem de ser acreditada pelos outros intervenientes no processo: os editores, os autores e também os leitores. Se eu fizer algo interessante, mas que ninguém entende, estou feito! Mesmo que essa acreditação surja daqui a 100 anos, não serve: nós procuramos reconhecimento imediato.

Mas com que profundidade têm de conhecer a obra?

Esse é outro mito! Muitos designers fazem questão de ler, mas não é fundamental. Nos tempos que correm, com a pressa que temos, não há tempo para isso. Contentamo-nos com uma sinopse, mas, se falarmos com designers mais antigos, eles dirão que isto é uma heresia. Na realidade, o fundamental é um olhar dos artistas sobre o mundo.

A vossa importância para a venda da obra é fundamental. Sentem-se heróis silenciosos?

Silenciosos? É discutível. Às vezes fazemos algum barulho. Aquilo que nós fazemos acaba por fazer parte do todo.

Já falhámos encomendas. Quando lançamos as ideias no papel ou no ecrã percebemos que algo não bate certo. “Não era isto que eu queria”, pensa o cliente. Isso faz parte da nossa rotina. No geral, o nosso trabalho é vigiado. Também costumo dizer que não se pode confiar completamente nos designers, exatamente porque, quando um trabalho chega ao atelier, colocamos nele uma máquina de emoções. Até a disposição com que acordamos nesse dia é determinante. O pobre do cliente também está refém e, por isso, é preciso compreender o lado dele.

O que não pode estar de certeza na capa de um livro?

Podemos dizer que, à partida, certas capas não podem ter determinadas caraterísticas, mas isso é relativo. Uma capa cor de rosa tem uma carga simbólica muito forte, quer seja por preconceito ou hábitos culturais que variam. O designer tem de ter isso em conta. Não podemos fazer uma capa cor de rosa? Algumas destas capas do Saramago são cor de rosa, mas nesse caso é irrelevante. Noutros livros o leitor pode interpretar isso como um problema, independentemente daquilo que lá está escrito. Procuramos que o leitor se identifique com a capa, sem ter vergonha de a mostrar.

Toda a tralha que tens comunica com o exterior aquilo que és – e tu queres ficar bem no retrato. Seguramente queres fazer parte de uma tribo. Assim, o designer tem de adivinhar aquilo que vai na cabeça do leitor. O que preciso de fazer para ele comprar isto?

João Seixas: “Queríamos fazer algo diferente e interventivo, mas que fosse parte de nós”

João Seixas: “Queríamos fazer algo diferente e interventivo, mas que fosse parte de nós”

João Seixas é natural de São Pedro do Sul, onde nasceu em 1966. As suas diversas experiências, em Portugal e no estrangeiro, levaram-no até à Ler Devagar, que ajudou a fundar há 20 anos. É um dos atuais administradores da Livraria que comemora o seu aniversário neste mês de junho.

Por Bárbara Barbosa

A entrevista teve lugar na Ler Devagar, em Alcântara, no decorrer de um dia rotineiro na vida de João Seixas. De manhã, levou as crianças à escola e trabalhou num artigo sobre Política Urbana em Lisboa. Das 14 horas às 16h30 deu aulas na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e acabou por não almoçar. A tosta mista que tinha pedido antes veio a tempo de uma merecida pausa na conversa. Ao universo da Ler Devagar dedica cerca de oito horas por semana, “entre horas vagas, noites, sábados e por vezes domingos”. Confessou que é complicado, porém fascinante, gerir os vários projetos em que está inserido com a vida pessoal. “Há um conhecimento adquirido e marginal que vai aumentando com o facto de ires fazendo coisas diferentes. Se não descurares nenhuma delas, aprendes mais em todas.”

A “Ler Devagar” foi fundada em 1999 no Bairro Alto, em Lisboa. Ocupou as antigas instalações da Litografia de Portugal e introduziu um conceito novo de livrarias. Como é que se formou o grupo fundador deste projeto?

João Seixas (JS): Há 20 anos juntou-se um grupo de amigos que se conheciam de várias formas. Achámos que em Portugal, e em Lisboa, estávamos a precisar de uma maior intervenção social através da cultura. Queríamos um espaço cultural que não fosse demasiado elitista nem demasiado popular, um intermédio capaz de construir pontes que permitissem avançar na forma de pensar o país e a sociedade. Um dia, um de nós disse “Há um espaço extraordinário na Litografia”. Era uma parte de um parque de estacionamento. Nos primeiros tempos pagámos o equivalente a 12 espaços de automóvel para fazermos uma livraria. Fizemos obras e fundámos uma empresa. Como éramos poucos e as necessidades crescentes, chamámos amigos de amigos e outros amigos desses amigos.  Começámos com cerca de 70 pessoas. Neste momento somos cerca de 160 cooperantes.

O que é que vos levou a avançar com esta ideia cosmopolita ainda antes do início do novo milénio?

JS: Numa frase: queríamos estar fora da caixa. Hoje em dia, 20 anos depois, é relativamente fácil fazer essa análise, mas na altura não. Queríamos fazer algo diferente e interventivo, mas que fosse parte de nós. Queríamos que pressentisse a espuma da mudança dos dias, em Portugal, na Europa, na cultura. Ao mesmo tempo, queríamos que fosse um espaço de diálogo e de debate das dinâmicas sociais de uma cidade. Começou em Lisboa, mas depois estendemo-nos a outros sítios.

Entre a licenciatura, os mestrados e os doutoramentos que acumula, encontram-se experiências internacionais em Londres e em Barcelona. O seu percurso levou-o, nomeadamente, a ser Professor Auxiliar na Universidade Nova de Lisboa e Professor Convidado na Universidade Autónoma de Barcelona e na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem tendência para comparar estas cidades? Se sim, de que forma?

JS: Inevitavelmente. É em relação à vida, à economia e à ciência política urbana que as coisas se vão decidir no futuro. Tive o desejo de estudar mais e melhor há mais de 20 anos. A Ler Devagar está ligada a esse meu desejo porque é um projeto profundamente urbano naquilo que propõe. É alternativa e não é unívoca. Junta diferentes visões, ideias e perspetivas. Queríamos uma coisa tão diversa e complexa como a própria cidade. É, por isso, importante interligar a história de Lisboa, de Portugal e da Europa com a Ler Devagar.

Este espaço foi feito em Lisboa, mas podia ter sido feito no Rio de Janeiro e em Barcelona, por exemplo.

JS: Claro. Tentámos abrir livrarias noutras cidades que não apenas em Portugal, mas era necessário ter uma força e uma estrutura razoável. Estivemos quase para abrir um espaço no Rio de Janeiro. Pensámos em abrir uma livraria em Barcelona. Tivemos a possibilidade de, com um sócio, abrir uma livraria em Paris. Em Évora, Serpa e Braga, por exemplo, fazemos parte de livrarias onde não somos o sócio maioritário, mas às quais demos o nosso apoio e ideias. A boa novidade é que finalmente vamos abrir um espaço no Porto.

“Com sorte, talvez abra no início do próximo ano uma Ler Devagar no Porto”

E esse projeto está pensado para quando?

JS: Não posso dizer muito, mas o prédio está em obras. Com sorte, talvez abra no início do próximo ano uma Ler Devagar no Porto.

As cidades por onde passou têm influência no seu trabalho diário na Livraria e nos restantes projetos em que está inserido…

JS: Muita. A maior parte dos fundadores da Ler Devagar teve experiência internacional. Em França, nos Estados Unidos, eu em Inglaterra e na Catalunha… Isso dá-nos uma mais ampla perspetiva em relação às questões da cidade e do país. Aliás, a ideia da Ler Devagar surge à imagem de algumas livrarias e centros culturais que estavam a começar nos anos 90, como a Barnes & Noble em Nova Iorque e a Shakespeare & Company em Paris. Fomos visitá-las, conhecemos as pessoas e com as nossas próprias ideias abrimos o espaço do Bairro Alto.

Até 2005 a Ler Devagar fundou a “Nouvelle Librairie Francaise” no atual Instituto Francês de Lisboa, a Ler Devagar-Artes na Culturgest, e a Ler Devagar-Cinema na Cinemateca Portuguesa. Nesse ano, encerrou o espaço do Bairro Alto e acomodou-se na Galeria ZDB e na Rua da Rosa. Estas adições foram idealizadas logo de início?

JS: Esses pequeninos espaços, a Galeria ZDB e Livraria na Rua da Rosa, foram sempre alternativas até chegarmos aqui porque fomos expulsos do espaço inicial no Bairro Alto. A litografia vendeu o prédio que tinha a uns investidores internacionais e, por isso, quando o nosso contrato de arrendamento terminou, tivemos de sair.

Em 2007, a Ler Devagar construiu a Fábrica Braço de Prata e em 2009 abriu as portas na Lx Factory. No mesmo ano, encerraram a livraria da ZDB e a da Cinemateca e abandonaram a livraria da Fábrica Braço de Prata. Concentraram-se em Alcântara. Por ser autor de livros como a “Governação de Proximidade” e “A Cidade na Encruzilhada”, considera que estas mudanças de local, especialmente a mais recente, contribuíram para facilitar a resolução das encruzilhadas da Cidade das 7 colinas?

JS: [Risos] Nós queríamos era fazer boas encruzilhadas. O ideal era que estivéssemos nesses diferentes espaços com diferentes intensidades, interesses e objetivos. Mas não é assim tão simples e tivemos que nos concentrar aqui. O que é interessante na encruzilhada tem a ver com os territórios da cidade: saímos do Bairro Alto e fomos para oriente, depois para ocidente, mas sempre para espaços em regeneração. Entretanto, fomos para o mundo rural em Óbidos. O nosso objetivo era ter espaços em sítios inesperados.

A Lx Factory é, em si, um espaço regenerado. Fez todo o sentido uma instituição que quer regenerar-se vir para aqui.

JS: Sim. A industrialização portuguesa começou em Alcântara no tempo do Marquês de Pombal. Isto foi uma fábrica de tecidos e, mais tarde, uma tipografia muito importante – a Fábrica Mirandela. É para nós estimulante fazer parte desta transição entre o passado e o futuro.

“Ao princípio éramos bastante sonhadores, chegámos a pensar meter livrarias no meio das cabras e dos pastores”

Em 2013, a Ler Devagar propôs e promoveu a instalação da “Vila Literária de Óbidos”, juntamente com a livraria infantil História com Bicho e com o apoio do município de Óbidos. Este último projeto veio deslocar os holofotes que eram anteriormente monopolizados pela capital. Qual foi o seu papel nesta empreitada?

JS: Alguns de nós vêm de Viseu, São Pedro do Sul, Aveiro, Alentejo… Mesmo vivendo em Lisboa há muitas décadas, sempre tivemos uma ligação muito forte a outros territórios do país. Queríamos fazer desde o início qualquer coisa no mundo rural. Ao princípio éramos bastante sonhadores, chegámos a pensar meter livrarias no meio das cabras e dos pastores. Era muito poético, mas não vendia. Um dia, a livraria Bichinho de Conto disse-nos que a Câmara Municipal de Óbidos estava a fazer um concurso para animação cultural de uma igreja medieval do século XIII, entretanto dessacralizada. Eu, o José Pinho e a Mafalda Milhões olhámos para a Vila e pensámos “É isto. Mas só uma livraria não funciona”. Apresentámos um projeto para transformar Óbidos numa “Vila Literária” com 14 livrarias. Concretizou-se e neste momento temos três. Há ainda um festival anual internacional, vários eventos e conferências, e já convidámos prémios Nobel. Fizemos uma candidatura à UNESCO e Óbidos já é uma vila património literário da humanidade.

E como é que está organizada a Ler Devagar?

JS: Isso é muito importante: há três conselhos. O Conselho da Administração gere os diferentes espaços e estratégias. O Conselho das Artes e dos Eventos gere a agenda, que é muito importante porque a Ler Devagar tornou-se de tal maneira icónica que várias editoras e associações de teatro e cultura vêm para aqui fazer os seus eventos. A nossa política é só cobrar às empresas. As instituições da sociedade civil e do terceiro setor não pagam e é para nós um prazer construir estas interligações. Finalmente, o Conselho de Leitura vê os livros que temos e faz questão de que sejamos o mais abertos possível. A designação comercial da Ler Devagar é “Livraria de Fundos” – são os fundos das livrarias, aqueles que estão guardados nos armazéns. Temos os best-sellers nas mesas lá em baixo, mas 95% do espaço da livraria são livros inesperados. Alguns são famosíssimos ou clássicos, mas não se encontram facilmente nas outras livrarias.

“Sentimos uma responsabilidade para com a sociedade e para com a cultura em Portugal”

É Administrador e Membro da Direção da Associação Cultural desta Livraria. O que significam estas funções para si?

JS: Em primeiro lugar, uma responsabilidade particular por ter sido fundador e continuar como um dos administradores. Sentimos uma responsabilidade para com a sociedade e para com a cultura em Portugal. Ao mesmo tempo, todos gostávamos de nos dedicar mais ao universo da Ler Devagar. De todos os fundadores, só um de nós, o Diretor Geral, é que está cá a tempo inteiro. A rentabilidade destes espaços vai para o salário dos nossos empregados. Em Portugal não há uma política de apoio, incluindo financeiro, a estas iniciativas que podem fazer mover uma sociedade…

Portugal esqueceu-se um bocadinho da cultura…

JS: Não só da Cultura. Em França, há um programa concreto de apoio às livrarias independentes e aos centros culturais. Nós tivemos um ou outro apoio muito ocasional relacionado com a compra de livros. Não quer dizer que não esteja contente como professor da NOVA FCSH, mas gostava muito de interligar mais a carreira académica com as dinâmicas daqui…

Livraria nómada: 5 espaços diferentes em 20 anos de história

Livraria nómada: 5 espaços diferentes em 20 anos de história

Atualmente instalada na LX Factory, a Ler Devagar celebrou, no mês de junho, 20 anos de uma história em constante mudança.

Por Bruna Ferreira e Mariana Tiago

Criada por um grupo de amigos que desejava ver temas importantes da sociedade debatidos à volta de livros, a Ler Devagar abriu portas no Bairro Alto em 1999. O grupo, com membros de diversas áreas profissionais liderado por José Pinho, decidiu ocupar as instalações da antiga Litografia de Portugal, situada no cimo da Rua de S. Boaventura, em Lisboa.

Em entrevista, João Seixas, um dos fundadores da livraria, revelou-nos que o Bairro Alto era o “epicentro da vida cultural lisboeta” e, por isso, fazia sentido abrir nesta zona de Lisboa e usufruir do grande e alto edifício da antiga litografia.

Este primeiro espaço funcionava, à semelhança da atual Ler Devagar, como centro cultural e galeria de arte. Ali acontecia um pouco de tudo: debates, teatros, concertos, lançamentos de livros e apresentações de dança. O espaço amplo contava ainda com bar, café, e zona para crianças.

Apesar do sucesso, José Pinho e os colegas viram-se obrigados a fechar portas na Rua de S. Boaventura quando, em junho de 2005, os proprietários decidiram transformar o edifício num condomínio de habitação. De acordo com o noticiado pelo Público em junho de 2005, a livraria tinha até 31 de agosto do mesmo ano para desocupar o espaço. Por isso, os administradores começaram a procurar novas instalações.

Passados 15 anos, nada foi construído no local e o prédio, casa da livraria nos primeiros seis anos, ainda não foi totalmente demolido.

Muitos livros e pouco espaço

Depois de um ano e meio fechada, a livraria reabriu no piso térreo da Galeria Zé dos Bois (ZDB), também no Bairro Alto, em fevereiro de 2006.

A oportunidade de mudança deveu-se a uma proposta de Natxo Checa, um dos fundadores da galeria e amigo dos fundadores da Ler Devagar.

José Pinho afirmou ao Público, em abril de 2006, que foi necessário que a livraria se adaptasse “não só ao espaço, bastante mais pequeno, mas também à própria filosofia da ZDB, uma galeria direcionada para as artes performativas”. O objetivo dos fundadores da livraria foi reproduzir o espaço inicial numa versão miniatura. Apesar de solucionar a situação, o primeiro local da Ler Devagar provocou, segundo João Seixas, uma certa “nostalgia do espaço-mãe”.

Na época, a ZDB (fundada em 1994) já era relevante no meio da literatura, arte e cultura. Atualmente, mantém-se como galeria de arte e de música alternativa, e destaca-se como espaço cultural de referência.

A janeiro de 2007, por falta de espaço na ZDB, a Ler Devagar inaugurou uma outra loja na Rua da Rosa, também no Bairro Alto. Assim, ocupava duas instalações em simultâneo: a ZDB (com livros de arte e cultura) e o espaço na Rua da Rosa, onde, de acordo com o noticiado pelo Jornal de Notícias no dia 20 de janeiro de 2007, os responsáveis queriam realçar os debates e os eventos característicos da livraria.

Duas livrarias, uma só morada: a passagem por Braço de Prata

Motivados pela falta de espaço, os fundadores da Ler Devagar procuraram outra casa para os livros. Em 2007 transitam para a Fábrica de Braço de Prata, antiga fábrica de armamento e material de guerra.

A mudança obrigou a uma parceria com a Eterno Retorno (livraria de filosofia). Em entrevista, Nuno Nabais, fundador da livraria de filosofia, afirmou que a Ler Devagar, ainda com o objetivo de ter livros até ao teto, “esteve a ocupar três salas que, entretanto, foram remodeladas e se chamam Sala Saramago, Prado Coelho e Kafka”. A ideia era a Ler Devagar usufruir de uma área específica, enquanto a Eterno Retorno explorava as outras.

Atualmente, a fábrica funciona como centro cultural e inclui uma livraria, galerias de arte, salas de cinema, teatro e de espetáculos musicais.

Ler e pedalar: a última morada

A estadia da Ler Devagar na Fábrica foi problemática, porque o espaço era gerido em conjunto. As duas livrarias tinham, segundo João Seixas, “visões diferentes do mundo, dos livros, e do que deve ser um centro cultural”. A incompatibilidade ditou a separação das livrarias, que se efetivou com a transferência da Ler Devagar para as instalações da LX Factory (Alcântara) onde se mantém até hoje.

Antes de ser o centro cultural e artístico atual, o espaço era explorado por um conjunto de fábricas que contribuíram para o desenvolvimento industrial da cidade no século XX. Em 2009, os donos decidiram promover o espaço de forma moderna e convidaram a Ler Devagar para se instalar no edifício abandonado da antiga Gráfica Miranda.

O espaço sofreu obras durante cerca de 9 meses e foi inaugurado a 23 de abril de 2009, Dia Mundial do Livro. Manteve-se, porém, a máquina onde se produziam jornais. As instalações, segundo João Seixas, iam ao encontro daquilo que queriam para a “cidade do futuro”: “multifunções, como a cidade”. Com mais espaço para eventos, debates e arte, a Ler Devagar voltou a ter uma grande afluência de pessoas e, para Seixas, “foi quase como se fosse o princípio, há 20 anos no Bairro Alto”. Considerada, pela publicação americana Flavorwire, uma das livrarias mais belas do mundo, a Ler Devagar é hoje um dos centros culturais mais importantes da cidade de Lisboa.

Pietro Proserpio — O Amor pela Arte Cinética

Pietro Proserpio — O Amor pela Arte Cinética

A conversa descontraída foi no próprio local de sua exposição. Pietro Prosérpio, criador de várias peças presentes na livraria Ler Devagar, na LxFactory, contou um pouco sobre como começou a sua paixão pelos brinquedos e, também, sobre temas que são frequentes em suas peças, como o tempo. 
Texto e fotografias: Clarisse Verdade 

 

Brinquedos:
da infância para vida toda 

Dono há 10 anos de uma exposição de brinquedos com movimento na Ler Devagar, na LxFactory, Pietro Proserpio ficou conhecido como Gepeto, o pai do Pinóquio. Vivenciou desde bombas a cair perto de sua casa quando ainda morava em Itália a frustrações numa antiga Lisboa sem gelados de pau Olá. Teve quatro netos, que não seguiram a sua paixão pelos brinquedos, e o seu sonho hoje é o futuro de sua exposição.

Nasceu em 1939, ano em que a Segunda Guerra Mundial se iniciava, em Calolziocorte, uma aldeia perto de Milão. Pietro Proserpio, aos sete anos, da vista da fábrica de tecido em que seu pai trabalhava, ainda conseguia ver as bombas a serem atiradas contra uma ponte que, pelo que conta, era importante para os alemães ou para os ingleses, não se recorda. Depois da guerra acabar, mesmo em meio a lembranças ruins, contou uma história que o faz rir até hoje, a andar em sua bicicleta próximo a esses buracos, uma vez caiu com a roda da frente dentro de um, “ploft”.

Ainda em Itália, sua paixão pelos brinquedos já se tornava evidente. Construía os seus próprios com peças de madeira encaixáveis e passava horas a brincar no pátio da fábrica, porém, ainda sem lhes dar movimentos.
Em 1949, quando tinha onze anos, veio morar para Lisboa, pois o seu pai passou a gerir uma fábrica de tecidos em Benfica. Ao chegar, deparou-se com situações que o deixaram indignado, como o facto de ainda não terem chegado cá os gelados de pau, Olá, e que para ir ao cinema, tinha de usar terno e gravata, o que fez com que fosse impedido de entrar algumas vezes nas salas.

Nas praias também não era como em Itália, tinha de se usar peitilho, uma camisola para homens e miúdos, mas a maioria recusava-se a vestir, então, quando se aproximava o cabo do mar, que era um fiscal que andava pela praia, ouvia-se de longe “cabo do mar, cabo do mar, cabo do mar” e todos vestiam a camisola.

No Liceu Francês, escola em que seus pais o colocaram para estudar e onde aprendeu português e francês, conheceu sua esposa. Eles moravam na mesma rua e todos os dias apanhavam juntos o autocarro para a escola e foi assim que o amor entre eles floresceu. Casaram-se anos depois e logo tiveram duas filhas, que lhes deram quatro netos. Criaram uma “família fabulosa”. Porém nenhum deles seguiu sua paixão pelos brinquedos.
A paixão prevaleceu e ganhou vida

Com a escola finalizada, seguiu os passos do pai na fábrica têxtil, mas no fundo sabia que o seu amor não era pelos fios e sim pela mecânica, por isso nunca a deixou de lado. Os brinquedos de início eram criados para diversão própria e para dos seus amigos, depois para as suas filhas e de seguida para seus netos. Quando todos já estavam crescidos, voltou a criá-los para si.

Suas peças, entretanto, começaram a ganhar vida. Depois de uma viagem, em que conseguiu fazer um movimento utilizando um pequeno motor, passou a repeti-lo e melhorá-lo em outros brinquedos. Para este movimento, começou a reutilizar motores de carrinhos telecomandados e de peças de computadores, por exemplo, tornando a reciclagem uma parte fundamental de suas criações. As histórias por detrás das peças também começaram a surgir.

Essa paixão fez com que, em 2009 aceitasse o convite de Michel, expositor residente da Ler Devagar, para juntar-se a ele no penúltimo andar da livraria e expor as suas criações. Desde então é onde passou a estar das 15 até as 20 horas, fazendo tours guiados a contar sobre as histórias das suas peças em cinco línguas diferentes.

“Uma pessoa que não sonha é uma pessoa sem vida”. A vida passa, e Pietro, já com seus 81 anos, tem mais um sonho. Deseja que, quando não puder mais continuar a apresentar as suas peças, alguém possa continuar a “dar-lhes vida”.

 

De que forma a sua infância influenciou ser o inventor que é hoje?
Desde sempre tive essa paixão. Na fábrica que meu pai trabalhava, quando morávamos ainda em Itália, tinha uma carpintaria e, antigamente, todas as coisas de madeira eram trabalhadas com encaixes. Eu juntava essas madeirinhas todas e fazia casinhas, brincava com eles durante dias.

Eu sempre fui inventor. Lembro-me também de um episódio cómico dos carros de roda, aqueles carrinhos de caixote de sabão. Eu tinha feito um carro desses e claro, como íamos embora de Itália, onde vivi até os meus onze anos, não ia trazê-lo para Portugal. Então, no pátio que havia na fábrica, pus o carrinho para ser leiloado. Neste dia, minha mãe veio à janela do primeiro andar do edifício da fábrica, que era onde eu morava, e viu o pátio cheio de miúdos, estavam todos a ver o carro e a querer comprá-lo, então ela virou-se para mim e perguntou o que estava acontecendo, já podes imaginar o ralhete que apanhei.

 

A paixão pelos brinquedos e pela arte cinética começou como?
A minha vida profissional foi na indústria têxtil, mas eu não gostava de fios, gostava de máquinas.

Um dia fui passear para Marvão e visitar um castelo, só que, para chegar lá em cima, era uma estrada cheia de pedregulhos, de maneira que uma pessoa, para andar, tinha de olhar para o chão. Então quando estava a subir, vi caído um motor eléctrico pequenino, apanhei-o, sempre apanho o lixo todo. Quando cheguei a casa, liguei-o a uma pilha e começou a mexer-se. Comecei a fazer um movimento muito simples e foi evoluindo e chegou ao que tenho hoje.

Mas a verdadeira paixão pela arte cinética foi despertada, principalmente, por uma visita que fiz em Madrid, ao museu Reina Sofia, onde houve uma exposição de arte cinética. Ali vi as primeiras peças com movimento. Havia uma com expirais que rodavam e eu fiquei ali quase uma hora a tentar perceber como é que aquilo funcionava. Depois eu descobri e fiz uma máquina com várias expirais que agora está guardada.

 

Como nasceu a ideia de trabalhar com peças mecânicas recicladas?
Foi uma noção de economia, essa é a razão real. A razão oficial é que é preciso reciclar para prepararmos um mundo melhor para os nossos filhos.

Mas eu sempre gostei de apanhar lixo. Por exemplo, uma das atividades acessórias da arte cinética é a descoberta do lixo, então sempre que estou a andar na rua, estou a olhar para os contentores. Tenho aqui várias peças que encontrei nestes. Isto é dar vida a peças que já acabaram com a vida delas, dar uma nova vida.

 

O tempo é um tema sempre presente em suas peças. Porquê?
O tempo foi a primeira coisa que inspirou a criação das minhas peças, porque o tempo é tudo e não é nada, nem se quer tem o nome só para ele. Temos o tempo das horas e o tempo da chuva. Nas línguas Anglo-Saxônicas há duas coisas “time” e “weather”, mas, nas línguas latinas, a palavra tempo é usada para as duas coisas.

Quando nos deixamos de ser jovens, por exemplo, o tempo torna-se cada vez mais importante, porque quando se é novo o tempo nunca mais passa, mas quando chegamos a minha idade, os anos são meses, os meses são semanas, as semanas são dias e os dias são horas.

Ainda tenho aqui duas ou três máquinas sobre o tempo, mas eu tinha toda uma série de sete ou oito máquinas sobre tempo, não estão mais arrumadas porque não há espaço para expor.

 

Todas as suas peças têm uma história, quer destacar a que mais gosta?
Todas elas mexem comigo. E se pergunta se tenho uma peça preferida, minha resposta seria, quando tiver filhos e alguém lhe perguntar qual deles você prefere, o que você responderia?
As peças são meus filhos, não tem como escolher.

 

Essas histórias são criadas enquanto está a fazer as peças ou vem depois?
A confecção de uma peça normalmente passa por duas fases. A primeira é imaginar o movimento mecânico, quando o tenho feito, imagino uma história e a partir daí, a peça é subordinada a ela. Por outro lado, quando decidi fazer uma máquina do tempo, então é a partir disso que é construída.

 

Qual o significado da bicicleta voadora que tem na entrada da livraria?
Eu a criei em 2011. Onde estamos agora, antes tinha aqui uma exposição que foi feita para chocar, era sobre o lixo, toda está parte em que minhas obras estão agora expostas, estava cheia de lixo, era uma autêntica lixeira. Quando tiraram tudo esqueceram-se de tirar uma bicicleta que estava pendurada no andar de cima. Eu olhava para ela todos os dias, estava toda enferrujada, e pensei que tinha que fazer qualquer coisa. Puxei-a para baixo, pendurei-a, pintei de branco e arranjei umas asas para ela, depois chamei o José Pinho, o dono da Ler Devagar e perguntei se ele gostava e ele disse que sim, então perguntei se poderia colocá-la suspensa na frente da livraria. Mas a bicicleta ainda não tinha a menina. Continuei a olhar para ela e senti que faltava qualquer coisa. Fui ter com a minha esposa, que é escultora, porque de desenho, eu não desenho nada, e perguntei se ela poderia criar uma boneca para por em cima da bicicleta e mostrei o movimento que eu queria. E ela fez-me a boneca e ficou muito giro.
Depois de um tempo, as pessoas começaram a perguntar por que a bicicleta não ia para frente e para trás e eu dizia que as pessoas estavam malucas, aonde já se viu uma bicicleta andar para frente e para trás. Tive então a ideia de criar algo que pudesse fazer este movimento e logo pensei no monociclo. Surgiu então o Sonhador, também com boneco feito pela minha esposa.

 

Clarisse Verdade // Junho de 2019

Quando se lê Devagar, o tempo voa — por Rafaela Chambel

Quando se lê Devagar, o tempo voa — por Rafaela Chambel

O relógio marca as três da tarde. O sol de inverno está espelhado no Rio Tejo. Se Belém é a paragem do dia, a Ler Devagar faz parte do itinerário obrigatório. O silêncio que se esperava numa livraria é aqui apenas ruído de fundo. Entre leituras abreviadas, exposições de arte e conversas de café, qual será o nosso pior inimigo? O tempo dedicado ao maior amor ou a angústia de ele se esgotar?

Passa pouco da hora de almoço e as pessoas circulam à velocidade da hora de ponta. Enquanto uns conduzem para o trabalho, outros movimentam-se pelo lazer. Um letreiro iluminado acusa, por uma rua estreita, o acesso à Lx Factory. O som é partilhado pelos pássaros, pelo murmurinho do convívio e pelo saxofone do jazz que toca nas colunas. São espaços que carregam um passado industrial que remonta ao século XIX e hoje acolhem arte local e pequenos negócios, que se dão a conhecer a quem decide espreitar.

A hora do dia pouco importa, pois, quando o sol se põe, o ambiente íntimo é garantido por mantas e pequenas luzes decorativas. Quem por lá passa enche a memória das câmaras fotográficas entre as ruas grafitadas e sobrevoadas pela Ponte 25 de Abril, cenário já familiar nas redes sociais. Pode ser do cheiro a livro novo ou das estantes infinitas, mas são poucos os que passam na Ler Devagar sem se deixarem seduzir pela curiosidade.

“Também os brancos sabem dançar”, diz o cartaz que recebe as pessoas à porta. É publicidade, em amarelo vivo, da obra de Kalaf Epalanga. A decoração casa o velho com o moderno. Por cima das cabeças voa uma bicicleta de asas brancas, montada por uma menina. É o coração da livraria e tem nome: “Menina Sonhadora” – muito prazer. À entrada avistam-se duas mulheres que recebem as pessoas com um sorriso atarefado.

Alexandra Sousa trabalha na livraria há quatro anos. Sempre de olho atento nos clientes à sua volta, oferece um café e senta-se na única mesa vazia, para contar que faz de tudo: arruma os livros, atende ao balcão, serve cafés e organiza os eventos. Sim, eventos na livraria. Desde concertos a debates e até mesmo apresentações de livros. O espaço é grande e chega para todos.
Cada passo na livraria é uma viagem entre romances, aventuras e contos infantis. Os quatro andares do edifício acompanham as prateleiras de livros, as obras de arte e os assentos para quem prefere folhear uma obra ao sabor de uma bebida. As explosões de cores em papel, madeira e ferrugem são indícios de um complexo industrial que deu lugar à cultura. Qualquer livraria nasce da narrativa, mas aqui todos os objectos têm uma história por contar.

Menino Sonhador
Um lance de escadas de metal dá acesso ao terceiro andar, onde permanece montada a rotativa que outrora imprimira o Público, o Expresso e os bilhetes da lotaria. Foi nesta estrutura que Pietro Proserpio, escultor italiano, montou uma viagem pela sua imaginação. Quem visita dificilmente fica imune à magia deste lugar. Com o circuito já memorizado, o artista apresenta as suas peças aos turistas. Já as tem na ponta das suas quatro línguas – italiano, francês, português e espanhol. Se precisarem de outra, improvisa com facilidade.

Madeira, metal e plástico são alguns dos materiais que utiliza, todos eles reciclados. Enquanto não se ouvem passos nas escadas, encosta-se ao braço da rotativa para esclarecer que a construção das peças tem “um desporto anexo que é espreitar os caixotes do lixo”. Um dia partiu o chapéu de chuva no meio de um temporal. “Normalmente, quem parte, deita fora”, mas Pietro usou os ferros do chapéu para criar a Tarântula Josefina. Pendurada por um fio, recria os movimentos de uma aranha e dá um arrepio. Com uma garrafa de perfume da Hugo Boss, moldou a cabeça de Hugo, o Formigão. Do outro lado da bancada, mostra orgulho em apresentar um gira-discos feito de CD antigos que, quando rodam, fazem tocar “Asa tão leve”, de Amália Rodrigues. E é ao som da tradição portuguesa que continua o espetáculo.

Os holofotes viram-se para uma máquina de relógios antigos. “Preciso de um voluntário para soprar”, diz Pietro. Uma jovem de cabelo ruivo e olhos claros chega-se à frente. Sopra e, com uma cara de surpresa, vê os ponteiros girarem na direção contrária. Se para muitos é sinal de azar, para o escultor é uma sorte, pois permite viajar no tempo. Mas não se pode deixar voltar muito atrás, porque “não se brinca com coisas sérias!” Animadas por motores descartados de computadores e outros controles remotos, as esculturas propõem um jogo entre a mecânica do passado e a tecnologia do futuro.

No fim do percurso, tem bilhetes deixados pelos turistas. “Not sure if you’re crazy or a genius, but either way, keep going” (“Não sei se és maluco ou um génio, mas de qualquer das formas, continua”). Artigos escritos sobre Pietro, memórias da sua família e um sofá antigo são os elementos que fazem o seu “escritório”. À vista de todos estão pendurados poemas que o inspiram. H. Himaldo e José Luís Peixoto são alguns dos autores que dão nome à passagem do tempo, que o artista italiano contorna e desafia.

O relógio do presente conta quatro horas da tarde e são muitos os que já passaram, mas também os que virão. Todos os dias (menos ao Domingo à tarde) mostra o seu trabalho às pessoas. “Ao fim de semana é uma bicha que vem por aí acima”, desabafa, entre demonstrações. O som que mais o acompanha é o do “Menino Sonhador” e é com grande felicidade que revela a sua história. “As pessoas que olhavam para a bicicleta perguntavam porque é que ela não anda para a frente e para trás” ao qual Pietro respondia: “tu és maluco, já viste alguma bicicleta andar para a frente e para trás?”. Assim se inspirou para esta escultura. Um monociclo que, como o relógio, avança e recua nas asas do tempo.
5721 caracteres na peça principal

Duas décadas de leitura partilhada
Fundada em 1999 no Bairro Alto, a Ler Devagar celebra agora 20 anos. Tem mais de 50 mil títulos de livros e é considerada uma das 20 livrarias mais belas do mundo, ou das 10 mais belas se se considerarem as livrarias instaladas em edifícios recuperados.

A 23 de Abril de 2009 abriu portas na Lx Factory. Alexandra Sousa conta com orgulho que “as pessoas visitam mais pelo que o espaço tem a oferecer”. Não só porque mantém a estrutura original, o que lhe confere um cariz histórico, mas também porque “incentiva à leitura e as pessoas podem pegar num livro e ir ler para o café”.

Ana Margarida e Carolina Duarte, estudantes na Universidade de Lisboa, são caras familiares no espaço. Entre as leituras e o lanche, confessam recorrer à livraria para estudar e conviver. Nos eventos, as alunas apontam que se serve à mesa o debate e a boa disposição.
“O comércio melhorou muito nos últimos anos com as redes sociais e as notícias que se fizeram sobre a livraria”, como explica a funcionária, desde que saiu nos grandes jornais – dentro e fora do país. Ainda assim, os turistas parecem vê-lo pela lente da câmara. “Às vezes só vejo o pau da selfie a entrar e a sair, nunca chego a ver a pessoa”, reitera Alexandra, em tom de brincadeira.

Para os dois a três funcionários que lá trabalham por dia, “é muito difícil gerir”, desabafa. Para além das múltiplas tarefas, acrescenta que a mais difícil é “passar entre a multidão”. Ainda assim, afirma com convicção que a entrada paga não está nos planos.

Com vários projectos, de Lisboa a Óbidos, a Ler Devagar continua a investir na cultura da palavra. Duas décadas de trabalho são relembradas com nostalgia pelos que a mantêm a funcionar. Já com olhos postos no futuro da livraria, os funcionários partilham entusiasmo pelo que está para vir.
1833 caracteres na peça secundária
Galeria de fotografias

Rafaela Chambel // Maio de 2019

Ninguém em Casa

Ninguém em Casa

25 €

Autor

Raul Reis

Sinopse

"Ninguém em Casa" propõe uma viagem estética a um objecto do quotidiano que nos passa despercebido.
Pretende dar um contributo para que sejam apreciadas e redescobertas as campainhas que existem nas entradas de casas e prédios novos, velhos, abandona- dos e que, discretas na sua função, são ou foram sempre uma peça essencial para o início de algo.
Este registo fotográfico procura ser um repositório do belo com o intuito de confrontar os modelos antigos com os modelos modernizados e uniformes, assim como recuperar, das nossas memórias, os toques que nos deixavam suspensos, à ombreira, a aguardar uma resposta.

 

Encomendas

livraria@lerdevagar.com

We, The Family

We, The Family

28,50 €

Autor

Luciane Valles

 

Sinopse

A colecção “We, The Family” mostra-nos imagens que reflectem momentos familiares em que a cumplicidade anda de mãos dadas com a luz, a cor e o enquadramento. Quer sejam retratos de família ou discretas observações de um recém-nascido, a objectiva oferece-nos sempre uma história. Não necessariamente uma história bonita, de embalar ou de encantar, mas certamente uma história vivida em que cada momento é um momento único que merece ser eternizado.
A colecção oferece, através do olhar de diferentes fotógrafos criteriosamente seleccionados, diferentes abordagens ao tema “família” centradas maioritariamente na infância, tanto nos locais de vivência quotidiana como em inesperadas incursões por locais de passagem regular ou ocasional.

Encomendas

livraria@lerdevagar.com

One City. One Name

One City. One Name

28,50 €

Autor

Luis Mileu

 

Sinopse

A colecção “One City. One Name” mostra-nos o mundo e as suas cidades sob os olhares de diversos fotógrafos com diferentes abordagens e linguagens visuais.

Encomendas

livraria@lerdevagar.com

No color? No Fun

No color? No Fun

28,50 €

Autor

Tiago Galo

 

Sinopse

Encomendas

livraria@lerdevagar.com