Óbidos Vila Literária – um dos melhores capítulos da Ler Devagar

Óbidos Vila Literária – um dos melhores capítulos da Ler Devagar

A ideia da Óbidos Vila Literária (OVL) surgiu da livraria Ler Devagar, pela mão de José Pinho, depois de ter sido desafiado a criar diversos locais culturais espalhados pela vila de Óbidos, em edifícios que estavam em ruínas e completamente abandonados. A ousadia valeu-lhe em 2015 a classificação atribuída pela UNESCO de Cidade Criativa da Literatura em Portugal.

Por Maria Castanheira e Tomás Lopes

Ser uma vila com apenas dez mil habitantes não impediu Óbidos de ser a primeira Cidade Criativa da Literatura em Portugal. Com 11 espaços literários, que vão desde livrarias a museus, galerias, hotéis e restaurantes, é um exemplo de como a cultura pode desenvolver economicamente um território.

“A estratégia OVL é o resultado de um processo que iniciou muito antes”, explica Paula Ganhão, responsável da Câmara Municipal de Óbidos pela implementação do projeto, acrescentando que, quando tudo começou, o título de Cidade Criativa da Literatura não estava no horizonte. “Primeiro começámos com a organização de eventos temáticos, em 2002, como forma de atrair visitantes a Óbidos em períodos de época baixa.” Anos mais tarde, em 2012, Óbidos lançou a maior livraria portuguesa dentro de uma igreja e iniciou-se uma estratégia de atração turística com uma nova configuração entre espaços e atividades.

 “O grande problema que sentíamos era que tínhamos muitos excursionistas – vinham, ficavam 45 minutos e iam embora. Precisávamos de atrair turistas que permanecessem mais de 24 horas, ficassem nos nossos hotéis e consumissem os nossos bens”, continua.

Partindo do que já vira no País de Gales, em Hay-on-Wye, José Pinho, um dos fundadores da Ler Devagar e seu administrador, sugeriu fazer de 11 lugares abandonados locais literários e criar uma “cidade do livro”. O sonho não ficou por aí. Seguindo o seu instinto, propôs aliar a abertura das livrarias à realização de festivais literários, inspirando-se no festival brasileiro FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty.

“A probabilidade de levarmos pessoas às livrarias seria maior se todos os meses tivéssemos algo a acontecer em Óbidos”, afirma José. O município é já conhecido por comemorações como o Festival de Chocolate, o Mercado Medieval, a Vila Natal e a Semana Santa que atraem centenas de milhares de turistas. “Nos meses em que não houvesse eventos, fazíamos um festival literário”, explica, de modo a manter uma procura turística constante.

Atualmente, são dois os grandes eventos organizados todos os anos no âmbito da Óbidos Vila Literária: o FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, e o Latitudes – Literatura e Viajantes. Porém, o objetivo é criar mais eventos literários ao longo do ano, de menor dimensão, segundo Paula Ganhão.

A iniciativa permitiu elevar a vila “a um nível e a um posicionamento cultural absolutamente ímpar, que nenhum outro evento e nenhuma outra estratégia desenvolvida em Óbidos na área da cultura conseguiu”, avança. O sucesso foi tal que, detalha a responsável, passou a ser a base de toda a estratégia da vila para as vertentes cultural e turística.

Paula Ganhão garante ainda que este tipo de eventos atrai a Óbidos um outro perfil de turista, de um segmento diferente do perfil de visitante de eventos como o Festival do Chocolate ou a Vila Natal, mais massificados. Na sua perspetiva, o turista “literário” vem das grandes cidades, “tem formação académica superior e é de uma classe social média-alta, o que em termos de consumo é muito bom”.

No entanto, a responsável nota que começa a existir a ideia de que o projeto é programado para uma certa elite e, nesse sentido, aponta que “ultrapassar essa ideia” é “um outro desafio”. Para combater esta conceção, a organização promove o envolvimento dos munícipes no projeto através, por exemplo, da implementação de cursos de formação com o objetivo de exponenciar a sensibilidade cultural nos residentes.

O financiamento é um dos desafios que têm pautado o trajeto da iniciativa. O fundador da Ler Devagar fala de um “processo lento” e remata: “inicialmente, dizem-te não, depois talvez e, no final, vamos lá nessa! Quando começam a ver que funciona, acreditam mais no projeto. Alguns vaticinaram, no começo, que só chegávamos ao terceiro ano”.

O futuro da Vila Literária de Óbidos

Sobre a relação da Ler Devagar com o projeto em Óbidos, José Pinho considera que a livraria tem sido o motor; no entanto, para o fundador, está na altura de deixar de o ser: “ao contrário de muita gente, eu acho que nós já cumprimos a nossa parte, por isso, era bom que houvesse outras pessoas para continuar o projeto”.

Inicialmente circunscrito à esfera dos espaços públicos, à responsabilidade do município, o sonho cresceu e foi acolhido pelas primeiras entidades do setor privado que se juntaram à iniciativa, permitindo alargar a vila literária. “Outras empresas privadas começaram a abraçar esta estratégia e também abriram negócios utilizando o livro como meio de promoção”, concretiza Paula, dando como exemplo o The Literary Man – Óbidos Hotel, cujas paredes, logo desde a entrada, estão literalmente forradas a livros.

Para José Pinho, a entrada de privados no projeto é fundamental para o imunizar à volatilidade dos ciclos políticos, fazendo com que a iniciativa continue, mesmo que, “de um dia para o outro”, a política autárquica deixe cair o projeto da estratégia turística e cultural.

Paula Ganhão aponta um caminho semelhante, identificando que o “próximo grande passo” consiste em ter “entidades privadas a programarem para a área da literatura”. E conclui: “alimentar esta estratégia e torná-la independente da Câmara Municipal é o nosso desafio”.

Danuta Wojciechowska: ler livros com ilustração é “tomar um banho de arte e literatura”

Danuta Wojciechowska: ler livros com ilustração é “tomar um banho de arte e literatura”

Danuta Wojciechowska nasceu no Canadá, licenciou-se em Design de Comunicação em Zurique e tirou uma pós-graduação em Educação pela Arte em Inglaterra. Combinando a literatura e a arte, fixou-se em Portugal, fundou o atelier Lupa Design e concretizou o sonho de ilustrar livros infantis. Em 2013, recebeu o Prémio Nacional de Ilustração e um ano depois foi-lhe atribuída a distinção “Mulheres Criadoras da Cultura”. A Ler Devagar foi essencial para a artista dar o primeiro salto.

Por Bebiana Martins

Sala do Atelier Lupa Design. Danuta Wojciechowska ilustrou mais de 60 livros, jogos e manuais escolares.

No atelier, rodeada pelas suas ilustrações coloridas e experiências plásticas, Danuta falou com entusiasmo das imagens que lhe preencheram a vida, mostrando que podem ter uma dimensão mais profunda do que se possa pensar à primeira vista.

O que a fez vir para Portugal e fundar cá o atelier?

O meu marido é português. Já o tinha conhecido quando tinha estado cá de férias. Ele, entretanto, foi viver para a Suíça e estudou no Instituto Jung. Pensámos que o projeto para vir para Portugal era fazermos um curso em educação pela arte, que fizemos em Inglaterra, com uma perspetiva de fundar uma escola em Portugal. Depois chegámos cá e foi tudo muito difícil. Mas não perdi esse sonho de ligar a arte à educação e encontrei nos livros um veículo que se infiltrou muito bem nas escolas. É uma maneira de uma pessoa com a vertente das artes entrar nesse meio, onde não há forçosamente uma porta aberta. Mas, para os livros, as pessoas abrem a porta. Por outro lado, o que também me fez vir para cá foi o facto de haver muito espaço para desenvolver este tipo de trabalho, a educação e a arte ligada ao ensino. Havia pessoas com quem já trabalhávamos à distância que tinham vontade disso. Acho que foi um bocadinho a vontade das pessoas que me puxou para cá. E que me puxa para as escolas.

Foi essa a primeira vez que pensou em ilustrar livros infantis? Ou já tinha esse interesse?

Era um sonho antigo, mas pensava que não seria possível de concretizar porque seria preciso ter o trabalho conhecido e ter o investimento das editoras. E eu também não sou de cá, por isso pensei que isso podia ser algum tipo de impedimento.

E como caracteriza a sua pintura e as suas ilustrações? Consegue explicar o seu processo criativo?

A primeira coisa que me motiva é uma ideia, é uma necessidade, é algo que sinto que faz falta, uma vontade interior de corresponder. Uma vez que tenho a motivação, encontro as cores. São as emoções transmitidas em luz. Por isso, a cor é a minha ferramenta principal. Não sou uma pessoa tão ligada ao traço, à linha. A composição é o meu elemento fundamental. O meu desenho destina-se a encontrar energias, forças e elementos. Através das cores, enquanto ilustradora, posso transmitir uma experiência muito profunda, que não passa forçosamente pelo intelecto, mas sim pela emoção. Faz parte de uma experiência muito profunda e arcaica em nós. Por isso é que gosto muito de trabalhar com a cor e também com alguma difusão na ilustração. As transições de cores abrem espaço para a imaginação, em contraste com as linguagens que muitas vezes se usam hoje em dia, que são todas formadas e acabadas. Nestas ilustrações eu procuro comunicar com a cor, dar também espaço para o leitor se perder nessa indefinição. É um espaço para brincar ou para se projetar lá para dentro.

Esboço e ilustração final do livro O Beijo da Palavrinha

Já colaborou com vários escritores, certamente todos muito diferentes entre si. Como é que se adapta a cada um e a cada história, nas suas ilustrações?

Os escritores com quem eu mais gosto de trabalhar dão-me bastante liberdade. Gosto também de mostrar o work in progress, para saber se estou a refletir bem aquilo que me mandam. A ilustração não é igual ao texto, mas tem que estar ligada a uma ideia, a uma intenção, que é o fio condutor da obra. Gosto dos escritores que me dão essa liberdade. Nos últimos tempos, com a autoria que tenho deste livro [Água Doce, Fluir com o Rio], tenho trabalhado em colaboração. São trabalhos de equipa e isso é uma coisa que me estimula muito, além de fortalecer o resultado final.

Falou há pouco das apresentações nas escolas. Em que é que consistem? E por que razão as faz com tanta regularidade?

As sessões com as escolas são muito diferentes. Estou um bocadinho a conversar com os professores, para saber o que é que eles querem. Por vezes também converso com os alunos, mostro o livro para perceber a forma como o veem. Para mim, a melhor maneira de compreender o modo como interiorizaram o livro é ver como é que eles reagem plasticamente, graficamente ou por escrito. Quando começam a interagir com o livro, a atividade ganha mais raízes e isso ser trabalhado pelos professores, no sentido de descobrir as várias vertentes do livro. É algo de que gosto muito nas artes, a liberdade de expressão, e sobretudo de dar essa ideia às crianças. Elas estão por vezes muito formatadas na escola e precisam do seu espaço de criatividade. Por outro lado, há crianças que podem ter outras capacidades além do estritamente racional. O trabalho de arte e expressão nas escolas é por isso muito inclusivo.

Na sua opinião, as ilustrações têm um papel tão importante como a escrita, nos livros infantis?

Sim. Hoje comunicamos cada vez mais visualmente, porque a tecnologia nos permite isso. Há uns anos atrás não era tão habitual. No livro ilustrado, cada ilustrador tem a possibilidade de desenvolver num espaço privilegiado uma pequena obra de arte com algo da sua linguagem. Tento acompanhar a escrita, mas às vezes faço umas pequenas coisas contraditórias na ilustração, só para provocar o pensamento crítico e assim estimular a criatividade da criança. A imagem e o texto são duas linguagens diferentes, mas no livro ilustrado existem ao mesmo tempo. Na maior parte da comunicação, hoje em dia, também privilegiamos essa complementaridade.

À medida que as crianças vão crescendo, os livros vão tendo cada vez mais texto e menos ilustrações. Acha que as ilustrações deixam de fazer sentido, ou deixam de ser tão importantes nas idades mais avançadas?

Não sei. Mas tive uma experiência curiosa, há pouco tempo, quando estávamos a lançar o livro A Água e a Águia. Fiz uma pequena tournée em Portugal com o Mia Couto. Foi uma experiência extraordinária. Num dos sítios, onde estariam 400 pessoas ou mais, foi fantástico perceber que muitos dos leitores das minhas ilustrações e dos livros adoravam ler as imagens e as ilustrações. Teria tendência para pensar: “as crianças a partir de uma certa idade não querem imagens”; ou “os adultos não precisam de imagens”. Mas naquele caso, como é um livro para todas as idades, fiquei surpreendida com o número de leitores adultos de livros ilustrados. No entanto, muitas crianças na escola, quando começam a crescer, têm o hábito de não continuar a cultivar a leitura das imagens. Ou quando um livro tem imagens põe-se na prateleira das crianças. Acho que há aqui com um preconceito muito grande, de que um livro ilustrado se destina a uma determinada idade e que as crianças mais velhas já não precisam da imagem. 

E acha que a imagem faz sentido em todas as idades?

Não são todas as imagens. Mas há muitas imagens podem ser para todas as idades. Eu gosto de ler texto, mas gosto imenso de ler livros com ilustração. É tomar um banho de arte e literatura. A cor tem por isso uma dimensão de sonho e de poesia.

Comemoração dos 20 anos da Ler Devagar: Danuta recorda a importância da livraria para a sua carreira
“A Ler Devagar foi fundamental para mim. Tinha acabado de ilustrar O Gato e o Escuro e tinha também um jogo de cartas que estimula as crianças a contar histórias. Estava a sair da área da comunicação pedagógica e a começar a ir para a ilustração de livros, no ramo editorial. Estava num momento de transição e estava a tentar fazer promoção do meu trabalho. Nessa altura [em 2003/2004] , a Ler Devagar ainda era na rua de São Boaventura, no Bairro Alto, e tinha um espaço muito simpático. Algumas pessoas que a conheciam disseram para eu lhes tentar mandar [o meu trabalho], porque eles tinham uma programação regular, uma coisa diferente todos os dias e todas as noites. Marquei uma reunião com o José Pinho [administrador da Ler Devagar] e ele mostrou-se muito recetivo. Fiz lá uma exposição, com cerca de 50 originais, com apresentação feita pela Ana Paula Guimarães e pelo Daniel Sampaio. Aquilo atraiu imensas pessoas, acho que foi uma espécie de nascimento para mim. Nessa nova vertente do meu trabalho, a Ler Devagar foi fundamental para o meu início de carreira.”

Nota: As imagens foram captadas aquando da entrevista e a sua utilização foi autorizada pela entrevistada.

Pietro Proserpio: “Estar aqui é esquecer que o tempo existe”

Pietro Proserpio: “Estar aqui é esquecer que o tempo existe”

Desde a abertura da livraria Ler Devagar na LxFactory, Pietro Proserpio leva os seus visitantes numa viagem “no tempo e no espaço”, onde lhes dá a conhecer as histórias por trás dos seus “objetos cinemáticos”.

Por Sofia Camilo

Pietro Proserpio é o habitante mais antigo da livraria Ler Devagar. Mecânico e artista, sonhador e contador de histórias, são muitas aquelas que nos conta à medida que percorremos a sua exposição de “Objetos Cinemáticos” que ocupa o segundo piso da livraria, desde que abriu portas na LxFactory.

E como é que a Ler Devagar o encontrou? Pietro já construía os seus “objetos cinemáticos” há 25 anos, mas durante muito tempo teve medo de os mostrar aos outros. Um dia, isso mudou. Foi na televisão que ouviu falar da feira Craft and Design, que decorria no Jardim da Estrela, em Lisboa, e decidiu ir até lá mostrar o seu trabalho aos organizadores. Eles gostaram. Dali, foi andando de feira em feira, uma coisa “que dá um trabalhão dos diabos”, confessa o próprio. Numa delas, foi abordado por um francês “maluco, alto, todo desengonçado”, que deu uma especial atenção às suas “maquinetas”.

Esse francês era Michel. Fazia sapateado e dava aulas de concertina no Conservatório Nacional de Música. E, além disso, “tinha um espaço dele na Fábrica Braço de Prata”. Nesse espaço, Pietro acabou por fazer várias exposições, até se mudar para a LxFactory e se tornar residente permanente daquele espaço onde, segundo Michel, “as maquinetas ficavam muito bem”.

Uma história como a bicicleta – voadora

Pietro Proserpio nasceu em Itália, no ano de 1938, mas viveu a maior parte da sua vida em Portugal. Guarda memórias de uma II Guerra Mundial que também assolou o seu país de origem, memórias essas que, mesmo hoje, são difíceis de esquecer. “Ainda agora durmo com os lençóis em cima da cabeça porque me lembro do barulho dos aviões de guerra”, confessa.

Aos 11 anos, veio para Portugal com os pais, que eram industriais têxteis e pretendiam erguer uma fábrica de veludos no país. Contudo, Pietro nunca foi um homem dos têxteis. Mesmo na sua juventude, “não gostava de fios, gostava das máquinas” que os teciam. “É daí que vem a paixão pela mecânica”, garante.

Quem descobre a Ler Devagar dificilmente fica indiferente à bicicleta branca que se ergue apenas uns passos adiante da porta de entrada, bem no centro da livraria, que tem por pano de fundo uma parede infinita de livros e o ponto preciso em que as escadas metálicas que dão acesso ao primeiro piso se cruzam. O que a maior parte, se calhar, não sabe é que foi Pietro Proserpio, mecânico e inventor de histórias, quem um dia a quis pôr a voar.

“Uma vez, o Michel quis fazer uma exposição que chocasse as pessoas e encheu este piso [o segundo] de lixo. Quando a exposição terminou e retiraram tudo, deixaram ficar uma bicicleta toda ferrugenta. Eu olhava todos os dias para ela e uma vez pensei: ‘Bom… Vou pôr esta bicicleta a voar!’”, conta Pietro. “Puxei-a para baixo, nem sequer a limpei… Pintei-a toda de branco e assim ficou. Fiz-lhe um par de asas, fui ter com o José Pinho [sócio-fundador da livraria] e perguntei-lhe se a podia pendurar ali.”

Mesmo depois de ter a sua Bicicleta pendurada num local central da Ler Devagar, de cada vez que Pietro olhava para ela, sentia que “faltava qualquer coisa…”

Se já são poucos os que sabem que a icónica Bicicleta da Ler Devagar é uma criação – ou, melhor dizendo, uma “recriação” de Pietro – o que se calhar ainda menos pessoas sabem é que foi a esposa do italiano quem lhe acrescentou essa “coisa” que faltava. 

Pietro queria que a bicicleta pertencesse a alguém e, por isso, resolveu que queria acrescentar-lhe uma menina que pudesse andar nela. “A minha esposa formou-se em escultura na Faculdade de Belas Artes. Eu fiz um esquema do que eu queria e ela desenhou a Bicicleta com a menina.”

Pela mulher, companheira de uma vida inteira, apaixonou-se com apenas 14 anos. “Íamos os dois para o Liceu Francês e o Liceu Francês tinha uma camioneta que ia todos os dias buscar-nos e trazer-nos. Fazíamos a viagem juntos todos os dias”, conta, relembrando com carinho esses tempos.

Na altura em que pendurou a Bicicleta na livraria, recorda Pietro, houve quem lhe perguntasse: “Por que é que não pões a Bicicleta a andar para a frente e para trás?”. “Tu estás maluco(a). Alguma vez viste uma bicicleta a andar para a frente e para trás?”, era o que respondia sempre. Contudo, enquanto amante da mecânica e da locomoção que é, fazia-lhe, de facto, falta criar uma peça que pudesse executar esse movimento. Então criou o monociclo, “porque os monociclos andam para trás”, justifica. E daí veio o Sonhador.

“Se o nosso amigo chegasse à Lua, já não era um sonhador. Era o Neil Armstrong”

A cada vez que um olhar curioso se depõe sobre o Sonhador, suspenso no ar no seu monociclo, Pietro apresenta-o da mesma forma: “Aquele nosso amigo é o Sonhador, porque sonha ir à Lua com um chapéu-de-chuva”.

Este Sonhador usa, de facto, um chapéu-de-chuva. E anda para trás e para a frente em direção à Lua, que nunca chega a alcançar. Nesse percurso incessante, que começou nos primórdios da existência desta livraria na LxFactory, encontra outros elementos e personagens suspensas no ar, que fazem parte da sua história.  

“O Sonhador encontrou uma gaivota, também sonhadora, que quis ir com ele à Lua. Descobriu então um navio fantasma do Capitão Gancho”, prossegue Pietro. “Na nuvem apareceu um anjinho…porque os anjinhos gostam muito dos sonhadores.”

Por que é que o Sonhador nunca chega à Lua? Pietro tem sempre resposta pronta para essa questão: “Se o nosso amigo chegasse à Lua, já não era um sonhador. Era o Neil Armstrong.”

É com o Sonhador que Pietro Proserpio começa a narrativa da sua exposição e é com a sua história que nos convida a mergulhar no seu universo criativo de máquinas, enredos, magia e movimento.  Entre monstros e insetos, cidades em miniatura e ventiladores, luzes, sons e materiais reutilizados, as várias peças criadas por Pietro partilham um ponto comum: o seu elemento cinemático.

Histórias que fazem parar o tempo

No campo da Física, “cinemático” é relativo ao movimento mecânico, assim como “cinético”. Na obra de Pietro, encontramos também esta significação, uma vez que todas as suas peças são mecânicas e vivem do movimento gerado por peças, roldanas, circuitos e pela eletricidade.

Contudo, as peças deste “inventor” da Ler Devagar não são “cinemáticas” apenas por causa da Física. “É arte cinética que conta histórias, vai buscar histórias diretamente aos filmes. ‘Cine’ dos filmes e “cinética” da arte cinética, da arte em movimento. Cinemática.” A presença da sétima arte no trabalho de Pietro verifica-se muito em peças como Tempos Modernos (na fotografia), uma referência a um dos clássicos mais célebres com Charlie Chaplin, e ainda numa outra, feita na base de uma referência ao filme Mon Oncle, do realizador francês Jacques Tati.

Surpreendentemente, Pietro revela não ser, na verdade, um grande cinéfilo. Do cinema, o que gosta verdadeiramente é “da parte de contar histórias”.

No entanto, confessa gostar muito de fazer reciclagem – o que se verifica ao longo de toda a sua exposição onde, na verdade, todas as peças foram construídas a partir de peças, objetos e materiais a que, um dia, Pietro quis dar uma nova vida. É o caso do monstro Lope, que foi feito a partir de um guarda-chuva partido (entre outras coisas).

Pietro diz que todas as peças têm nome, porque “todas têm uma história”. Contudo, nem sempre foi assim. O pequeno e desajeitado “monstrinho” Lope apenas teve direito a nome mais tarde. “Há uns tempos, veio aqui um grupo de raparigas espanholas, e uma delas perguntou-me como se chamava o monstro.” conta Pietro. “E eu disse que ele era tão feio que não tinha nome. Então ela disse: ‘Chame-lhe Lope.’ Eu perguntei: ‘Lope porquê?’. ‘É o meu chefe’, disse ela.” E assim ficou o monstro batizado.

As histórias contadas nas palavras de Pietro Proserpio, muitos o dizem, “fazem parar o tempo” na sua exposição. Talvez por isso, uma das temáticas mais presentes no seu universo inebriante seja o tempo. Para Pietro, “o tempo é tudo e não é nada”.

Sobre o processo criativo para compor todo o seu mundo de magia, histórias e mecânica, Pietro diz que o mais importante “são as ideias”.

“As ideias aparecem-me de manhã”, afirma. “Eu acordo sempre às 7:30, fico na sorna, e é nessa horita que aparecem todas as ideias que eu depois desenvolvo.”

“Como nascem as peças? Há dois ou três caminhos. Imagino um movimento mecânico e executo-o. Quando acabei de ter o primeiro movimento mecânico, começo a imaginar a história. A partir desse momento, é a história que conduz a construção da máquina. Ou então decido fazer uma peça sobre determinado tema e a partir daí vou escolhendo as peças para fazer essa máquina.” Um terceiro caminho é encontrar uma peça qualquer e utilizá-la para fazer uma máquina. Pietro coloca a peça à sua frente e começa a imaginar como é que a vai encaixar e como pode desenvolver a sua produção.

“Um ventilador faz vento e o amor é como um vento quente no deserto”

Um bom exemplo de uma obra que começou, precisamente, pela peça em si é aquela com que Pietro escolhe terminar a sua exposição e aquela a que, por teimosia e contradição, gosta de chamar “Amor”.

A ideia veio de uma situação em que um visitante lhe disse que as suas peças, apesar de interessantes, não faziam nada de útil. “Como em Portugal faz um calor de morte, eu fiz um ventilador. Podem crer que não há nada mais útil que um ventilador aqui”, diz.

Contudo, aquele que expõe na livraria Ler Devagar é já o segundo ventilador que fez – o primeiro foi logo vendido. “Fiquei traumatizado porque foi a primeira vez na minha vida em que fiz qualquer coisa de útil. Tive de lhe dar um nome oposto. E o nome mais oposto que encontrei em relação ao ‘útil’ foi o ‘amor’”, conta. Mas era preciso arranjar uma história que suportasse o facto de estar a chamar “Amor” a um ventilador.

“Um ventilador faz vento e o amor é como um vento quente no deserto. São os beijos que o vento dá nas velas dos barcos. E por vezes arrefece, como o vento do norte”, justifica Pietro, adiantando que no primeiro dia em que apresentou a peça com esta história, uma senhora quis logo comprá-la. “Eu acho que ela comprou a história, mas como levou a coisa, por mim tudo bem”, brinca.

Pietro tem a perfeita noção de que não se vive para sempre e assegura que, com a idade que tem, já chegou a preocupar-se com o destino das suas peças, que ama tanto mas, ainda assim, entre as quais não distingue nenhuma favorita. “Quando te casares e tiveres filhos…se te perguntarem qual é o favorito o que é que tu respondes? Que são todos, não é?”, diz, encolhendo os ombros.

Quando lhe perguntam “É feliz aqui?”, a resposta de Pietro é simples, mas clara. “Como toda a minha família diz, sou um homem cheio de sorte. A minha filha até diz que nasci com o cu virado para a lua!” diz, acrescentando: “A minha grande sorte foi ter encontrado a Ler Devagar, porque o contacto com a juventude ajuda-nos a não envelhecer tão depressa”. E, para ele, “estar aqui é esquecer que o tempo existe”.

Jorge Silva: “O designer tem de adivinhar aquilo que vai na cabeça do leitor”

Jorge Silva: “O designer tem de adivinhar aquilo que vai na cabeça do leitor”

Por Diogo Barradas

O livro não se limita às palavras que o habitam. Se o livro for um portal para outra dimensão, a capa é a sua moldura. Jorge Silva sabe-o bem, por estar neste mundo há tantos anos. Designer de comunicação, dedicou-se sobretudo ao design editorial e à direção de arte de diferentes publicações, com destaque para o jornal Combate e O Independente, bem como os suplementos Y e Mil Folhas, do jornal Público. Em 2001 fundou o seu atelier, “Silvadesigners”, que desde então soma projetos de sucesso. Foi, entre 2007 e 2010, diretor de arte do Grupo Editorial Leya onde encontrou “de tudo, desde o Saramago ao chefe Silva”. No mundo do design de livros, o seu atelier foi responsável pelas premiadas capas da coleção Bis, em 2008, bem como pelas mais recentes capas das obras de José Saramago, em 2014. Enquanto o atelier fervilhava, falámos com Jorge numa sala lateral. O homem que se diz colecionador tinha, nesta sala despojada, uma imensa prateleira repleta de livros de diversos tamanhos e feitios. É uma prateleira de consulta e inspiração, da qual se serviu vezes sem conta durante a conversa, para mostrar que, afinal, podemos julgar o livro pela capa.

A capa é o limiar entre o leitor e o livro. Como é trabalhar nessa fronteira?

É uma grande responsabilidade. É muito fácil culpar as capas pela má prestação comercial dos livros ou dos jornais. As capas dos jornais seguem um modelo editorial ou conceptual, que tem a ver com um determinado território de reconhecimento mútuo: é um compromisso com o leitor.

Os livros também procuram criar um conforto com os seus leitores habituais, seja em relação aos autores, aos géneros ou até a própria editora. Embora, no limite, a capa de um livro deva valer por si própria. Tem de jogar com os trunfos todos para poder convencer o leitor a comprar.

Todo o livro quer ter essa ambição de ser universal, mas isso não é verdade. Todos os livros têm um universo de leitores restrito. Um obscuro poeta terá sempre menos leitores do que um blockbuster de aventuras.

Procuramos fazer com que a capa seja justa ao universo de leitores que esse livro tem, mas, por outro lado, tentamos fazer o melhor possível dentro desses limites, com o desejo de fazê-lo chegar a toda a gente. O objetivo é vender o mais possível. Por isso, uma capa errada pode criar um sério prejuízo…

E que desafios surgiram quando trabalharam as capas de um autor implementado, como José Saramago?

O caso do Saramago é um muito particular, por ser um autor universal. Já tínhamos visto toda a espécie de capa para os livros dele, pelo que havia já alguma fadiga.

O desafio era difícil. Por isso, fizemos uma coisa rara no atelier, que é um concurso interno. Por acaso ganhou a minha ideia, que era a menos espetacular. A solução que apresentei era tipográfica, mas tinha por trás uma ideia emocional. Assim, convidámos escritores, amigos de Saramago, para escrever as suas capas. A ideia foi aprovada pela Fundação José Saramago, que sugeriu que não fossem só escritores, mas também arquitetos, artistas e músicos próximos do autor. Esta ideia bastante simples não se parecia com nada que já tivéssemos feito.

Estas capas são de alguma maneira o triunfo do design no capismo de livros. A situação era grave: o mercado estava inundado de Saramagos. Tratou-se, neste caso, de ter uma nova ideia sobre a mesma coisa. Esta abundância de livros dele no mercado significou que pudemos pensar as capas de um ponto de vista autoral do design, apesar de a tipografia em si não ter sido feita por nós, mas pelos amigos de Saramago.

Embora um dos mitos do capismo de livros seja a ideia de que a capa tem de contar uma história, essa expetativa pode ser um pesadelo para os designers. Mas as capas caligráficas dos livros de Saramago não contam nenhuma história.

Estas capas foram aprovadas imediatamente, pela primeira e única vez na minha vida profissional, o que nunca tinha acontecido. É aquilo que eu chamo o crime perfeito: o trabalho oficinal destas capas foi bastante duro, mas ninguém poderia dizer que não gosta da caligrafia do Júlio Pomar, por exemplo, que tipografou uma das capas.

Existe uma incompreensão das editoras em relação às linguagens do design?

Não necessariamente. Por vezes, o que existe é uma incompreensão do designer em relação às linguagens daquele género ou em relação às convenções das editoras. Não penso que de um lado estão os criadores, cuja liberdade e capacidade criativa é inesgotável, e do outro as editoras, com os seus objetivos comerciais, ou a estupidez dos autores. Na realidade, a indústria do livro em Portugal é tão precária que até mesmo os livros comerciais são feitos por amor, porque ninguém ganha dinheiro a fazer livros. Temos que compreender que essas tensões têm uma razão realista.

Há ingredientes imprescindíveis para uma boa capa?

Uma capa tem sempre a ver com o universo do criador. Senão, não conseguimos explicar por que raio é que um livro cujo texto original é do século XVII ou XVIII já teve 500 capas diferentes ao longo dos anos. As capas são diferentes porque as pessoas, em contexto de época ou de lugar, têm interpretações diferentes. No entanto, essa leitura tem de ser acreditada pelos outros intervenientes no processo: os editores, os autores e também os leitores. Se eu fizer algo interessante, mas que ninguém entende, estou feito! Mesmo que essa acreditação surja daqui a 100 anos, não serve: nós procuramos reconhecimento imediato.

Mas com que profundidade têm de conhecer a obra?

Esse é outro mito! Muitos designers fazem questão de ler, mas não é fundamental. Nos tempos que correm, com a pressa que temos, não há tempo para isso. Contentamo-nos com uma sinopse, mas, se falarmos com designers mais antigos, eles dirão que isto é uma heresia. Na realidade, o fundamental é um olhar dos artistas sobre o mundo.

A vossa importância para a venda da obra é fundamental. Sentem-se heróis silenciosos?

Silenciosos? É discutível. Às vezes fazemos algum barulho. Aquilo que nós fazemos acaba por fazer parte do todo.

Já falhámos encomendas. Quando lançamos as ideias no papel ou no ecrã percebemos que algo não bate certo. “Não era isto que eu queria”, pensa o cliente. Isso faz parte da nossa rotina. No geral, o nosso trabalho é vigiado. Também costumo dizer que não se pode confiar completamente nos designers, exatamente porque, quando um trabalho chega ao atelier, colocamos nele uma máquina de emoções. Até a disposição com que acordamos nesse dia é determinante. O pobre do cliente também está refém e, por isso, é preciso compreender o lado dele.

O que não pode estar de certeza na capa de um livro?

Podemos dizer que, à partida, certas capas não podem ter determinadas caraterísticas, mas isso é relativo. Uma capa cor de rosa tem uma carga simbólica muito forte, quer seja por preconceito ou hábitos culturais que variam. O designer tem de ter isso em conta. Não podemos fazer uma capa cor de rosa? Algumas destas capas do Saramago são cor de rosa, mas nesse caso é irrelevante. Noutros livros o leitor pode interpretar isso como um problema, independentemente daquilo que lá está escrito. Procuramos que o leitor se identifique com a capa, sem ter vergonha de a mostrar.

Toda a tralha que tens comunica com o exterior aquilo que és – e tu queres ficar bem no retrato. Seguramente queres fazer parte de uma tribo. Assim, o designer tem de adivinhar aquilo que vai na cabeça do leitor. O que preciso de fazer para ele comprar isto?

João Seixas: “Queríamos fazer algo diferente e interventivo, mas que fosse parte de nós”

João Seixas: “Queríamos fazer algo diferente e interventivo, mas que fosse parte de nós”

João Seixas é natural de São Pedro do Sul, onde nasceu em 1966. As suas diversas experiências, em Portugal e no estrangeiro, levaram-no até à Ler Devagar, que ajudou a fundar há 20 anos. É um dos atuais administradores da Livraria que comemora o seu aniversário neste mês de junho.

Por Bárbara Barbosa

A entrevista teve lugar na Ler Devagar, em Alcântara, no decorrer de um dia rotineiro na vida de João Seixas. De manhã, levou as crianças à escola e trabalhou num artigo sobre Política Urbana em Lisboa. Das 14 horas às 16h30 deu aulas na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e acabou por não almoçar. A tosta mista que tinha pedido antes veio a tempo de uma merecida pausa na conversa. Ao universo da Ler Devagar dedica cerca de oito horas por semana, “entre horas vagas, noites, sábados e por vezes domingos”. Confessou que é complicado, porém fascinante, gerir os vários projetos em que está inserido com a vida pessoal. “Há um conhecimento adquirido e marginal que vai aumentando com o facto de ires fazendo coisas diferentes. Se não descurares nenhuma delas, aprendes mais em todas.”

A “Ler Devagar” foi fundada em 1999 no Bairro Alto, em Lisboa. Ocupou as antigas instalações da Litografia de Portugal e introduziu um conceito novo de livrarias. Como é que se formou o grupo fundador deste projeto?

João Seixas (JS): Há 20 anos juntou-se um grupo de amigos que se conheciam de várias formas. Achámos que em Portugal, e em Lisboa, estávamos a precisar de uma maior intervenção social através da cultura. Queríamos um espaço cultural que não fosse demasiado elitista nem demasiado popular, um intermédio capaz de construir pontes que permitissem avançar na forma de pensar o país e a sociedade. Um dia, um de nós disse “Há um espaço extraordinário na Litografia”. Era uma parte de um parque de estacionamento. Nos primeiros tempos pagámos o equivalente a 12 espaços de automóvel para fazermos uma livraria. Fizemos obras e fundámos uma empresa. Como éramos poucos e as necessidades crescentes, chamámos amigos de amigos e outros amigos desses amigos.  Começámos com cerca de 70 pessoas. Neste momento somos cerca de 160 cooperantes.

O que é que vos levou a avançar com esta ideia cosmopolita ainda antes do início do novo milénio?

JS: Numa frase: queríamos estar fora da caixa. Hoje em dia, 20 anos depois, é relativamente fácil fazer essa análise, mas na altura não. Queríamos fazer algo diferente e interventivo, mas que fosse parte de nós. Queríamos que pressentisse a espuma da mudança dos dias, em Portugal, na Europa, na cultura. Ao mesmo tempo, queríamos que fosse um espaço de diálogo e de debate das dinâmicas sociais de uma cidade. Começou em Lisboa, mas depois estendemo-nos a outros sítios.

Entre a licenciatura, os mestrados e os doutoramentos que acumula, encontram-se experiências internacionais em Londres e em Barcelona. O seu percurso levou-o, nomeadamente, a ser Professor Auxiliar na Universidade Nova de Lisboa e Professor Convidado na Universidade Autónoma de Barcelona e na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem tendência para comparar estas cidades? Se sim, de que forma?

JS: Inevitavelmente. É em relação à vida, à economia e à ciência política urbana que as coisas se vão decidir no futuro. Tive o desejo de estudar mais e melhor há mais de 20 anos. A Ler Devagar está ligada a esse meu desejo porque é um projeto profundamente urbano naquilo que propõe. É alternativa e não é unívoca. Junta diferentes visões, ideias e perspetivas. Queríamos uma coisa tão diversa e complexa como a própria cidade. É, por isso, importante interligar a história de Lisboa, de Portugal e da Europa com a Ler Devagar.

Este espaço foi feito em Lisboa, mas podia ter sido feito no Rio de Janeiro e em Barcelona, por exemplo.

JS: Claro. Tentámos abrir livrarias noutras cidades que não apenas em Portugal, mas era necessário ter uma força e uma estrutura razoável. Estivemos quase para abrir um espaço no Rio de Janeiro. Pensámos em abrir uma livraria em Barcelona. Tivemos a possibilidade de, com um sócio, abrir uma livraria em Paris. Em Évora, Serpa e Braga, por exemplo, fazemos parte de livrarias onde não somos o sócio maioritário, mas às quais demos o nosso apoio e ideias. A boa novidade é que finalmente vamos abrir um espaço no Porto.

“Com sorte, talvez abra no início do próximo ano uma Ler Devagar no Porto”

E esse projeto está pensado para quando?

JS: Não posso dizer muito, mas o prédio está em obras. Com sorte, talvez abra no início do próximo ano uma Ler Devagar no Porto.

As cidades por onde passou têm influência no seu trabalho diário na Livraria e nos restantes projetos em que está inserido…

JS: Muita. A maior parte dos fundadores da Ler Devagar teve experiência internacional. Em França, nos Estados Unidos, eu em Inglaterra e na Catalunha… Isso dá-nos uma mais ampla perspetiva em relação às questões da cidade e do país. Aliás, a ideia da Ler Devagar surge à imagem de algumas livrarias e centros culturais que estavam a começar nos anos 90, como a Barnes & Noble em Nova Iorque e a Shakespeare & Company em Paris. Fomos visitá-las, conhecemos as pessoas e com as nossas próprias ideias abrimos o espaço do Bairro Alto.

Até 2005 a Ler Devagar fundou a “Nouvelle Librairie Francaise” no atual Instituto Francês de Lisboa, a Ler Devagar-Artes na Culturgest, e a Ler Devagar-Cinema na Cinemateca Portuguesa. Nesse ano, encerrou o espaço do Bairro Alto e acomodou-se na Galeria ZDB e na Rua da Rosa. Estas adições foram idealizadas logo de início?

JS: Esses pequeninos espaços, a Galeria ZDB e Livraria na Rua da Rosa, foram sempre alternativas até chegarmos aqui porque fomos expulsos do espaço inicial no Bairro Alto. A litografia vendeu o prédio que tinha a uns investidores internacionais e, por isso, quando o nosso contrato de arrendamento terminou, tivemos de sair.

Em 2007, a Ler Devagar construiu a Fábrica Braço de Prata e em 2009 abriu as portas na Lx Factory. No mesmo ano, encerraram a livraria da ZDB e a da Cinemateca e abandonaram a livraria da Fábrica Braço de Prata. Concentraram-se em Alcântara. Por ser autor de livros como a “Governação de Proximidade” e “A Cidade na Encruzilhada”, considera que estas mudanças de local, especialmente a mais recente, contribuíram para facilitar a resolução das encruzilhadas da Cidade das 7 colinas?

JS: [Risos] Nós queríamos era fazer boas encruzilhadas. O ideal era que estivéssemos nesses diferentes espaços com diferentes intensidades, interesses e objetivos. Mas não é assim tão simples e tivemos que nos concentrar aqui. O que é interessante na encruzilhada tem a ver com os territórios da cidade: saímos do Bairro Alto e fomos para oriente, depois para ocidente, mas sempre para espaços em regeneração. Entretanto, fomos para o mundo rural em Óbidos. O nosso objetivo era ter espaços em sítios inesperados.

A Lx Factory é, em si, um espaço regenerado. Fez todo o sentido uma instituição que quer regenerar-se vir para aqui.

JS: Sim. A industrialização portuguesa começou em Alcântara no tempo do Marquês de Pombal. Isto foi uma fábrica de tecidos e, mais tarde, uma tipografia muito importante – a Fábrica Mirandela. É para nós estimulante fazer parte desta transição entre o passado e o futuro.

“Ao princípio éramos bastante sonhadores, chegámos a pensar meter livrarias no meio das cabras e dos pastores”

Em 2013, a Ler Devagar propôs e promoveu a instalação da “Vila Literária de Óbidos”, juntamente com a livraria infantil História com Bicho e com o apoio do município de Óbidos. Este último projeto veio deslocar os holofotes que eram anteriormente monopolizados pela capital. Qual foi o seu papel nesta empreitada?

JS: Alguns de nós vêm de Viseu, São Pedro do Sul, Aveiro, Alentejo… Mesmo vivendo em Lisboa há muitas décadas, sempre tivemos uma ligação muito forte a outros territórios do país. Queríamos fazer desde o início qualquer coisa no mundo rural. Ao princípio éramos bastante sonhadores, chegámos a pensar meter livrarias no meio das cabras e dos pastores. Era muito poético, mas não vendia. Um dia, a livraria Bichinho de Conto disse-nos que a Câmara Municipal de Óbidos estava a fazer um concurso para animação cultural de uma igreja medieval do século XIII, entretanto dessacralizada. Eu, o José Pinho e a Mafalda Milhões olhámos para a Vila e pensámos “É isto. Mas só uma livraria não funciona”. Apresentámos um projeto para transformar Óbidos numa “Vila Literária” com 14 livrarias. Concretizou-se e neste momento temos três. Há ainda um festival anual internacional, vários eventos e conferências, e já convidámos prémios Nobel. Fizemos uma candidatura à UNESCO e Óbidos já é uma vila património literário da humanidade.

E como é que está organizada a Ler Devagar?

JS: Isso é muito importante: há três conselhos. O Conselho da Administração gere os diferentes espaços e estratégias. O Conselho das Artes e dos Eventos gere a agenda, que é muito importante porque a Ler Devagar tornou-se de tal maneira icónica que várias editoras e associações de teatro e cultura vêm para aqui fazer os seus eventos. A nossa política é só cobrar às empresas. As instituições da sociedade civil e do terceiro setor não pagam e é para nós um prazer construir estas interligações. Finalmente, o Conselho de Leitura vê os livros que temos e faz questão de que sejamos o mais abertos possível. A designação comercial da Ler Devagar é “Livraria de Fundos” – são os fundos das livrarias, aqueles que estão guardados nos armazéns. Temos os best-sellers nas mesas lá em baixo, mas 95% do espaço da livraria são livros inesperados. Alguns são famosíssimos ou clássicos, mas não se encontram facilmente nas outras livrarias.

“Sentimos uma responsabilidade para com a sociedade e para com a cultura em Portugal”

É Administrador e Membro da Direção da Associação Cultural desta Livraria. O que significam estas funções para si?

JS: Em primeiro lugar, uma responsabilidade particular por ter sido fundador e continuar como um dos administradores. Sentimos uma responsabilidade para com a sociedade e para com a cultura em Portugal. Ao mesmo tempo, todos gostávamos de nos dedicar mais ao universo da Ler Devagar. De todos os fundadores, só um de nós, o Diretor Geral, é que está cá a tempo inteiro. A rentabilidade destes espaços vai para o salário dos nossos empregados. Em Portugal não há uma política de apoio, incluindo financeiro, a estas iniciativas que podem fazer mover uma sociedade…

Portugal esqueceu-se um bocadinho da cultura…

JS: Não só da Cultura. Em França, há um programa concreto de apoio às livrarias independentes e aos centros culturais. Nós tivemos um ou outro apoio muito ocasional relacionado com a compra de livros. Não quer dizer que não esteja contente como professor da NOVA FCSH, mas gostava muito de interligar mais a carreira académica com as dinâmicas daqui…

Livraria nómada: 5 espaços diferentes em 20 anos de história

Livraria nómada: 5 espaços diferentes em 20 anos de história

Atualmente instalada na LX Factory, a Ler Devagar celebrou, no mês de junho, 20 anos de uma história em constante mudança.

Por Bruna Ferreira e Mariana Tiago

Criada por um grupo de amigos que desejava ver temas importantes da sociedade debatidos à volta de livros, a Ler Devagar abriu portas no Bairro Alto em 1999. O grupo, com membros de diversas áreas profissionais liderado por José Pinho, decidiu ocupar as instalações da antiga Litografia de Portugal, situada no cimo da Rua de S. Boaventura, em Lisboa.

Em entrevista, João Seixas, um dos fundadores da livraria, revelou-nos que o Bairro Alto era o “epicentro da vida cultural lisboeta” e, por isso, fazia sentido abrir nesta zona de Lisboa e usufruir do grande e alto edifício da antiga litografia.

Este primeiro espaço funcionava, à semelhança da atual Ler Devagar, como centro cultural e galeria de arte. Ali acontecia um pouco de tudo: debates, teatros, concertos, lançamentos de livros e apresentações de dança. O espaço amplo contava ainda com bar, café, e zona para crianças.

Apesar do sucesso, José Pinho e os colegas viram-se obrigados a fechar portas na Rua de S. Boaventura quando, em junho de 2005, os proprietários decidiram transformar o edifício num condomínio de habitação. De acordo com o noticiado pelo Público em junho de 2005, a livraria tinha até 31 de agosto do mesmo ano para desocupar o espaço. Por isso, os administradores começaram a procurar novas instalações.

Passados 15 anos, nada foi construído no local e o prédio, casa da livraria nos primeiros seis anos, ainda não foi totalmente demolido.

Muitos livros e pouco espaço

Depois de um ano e meio fechada, a livraria reabriu no piso térreo da Galeria Zé dos Bois (ZDB), também no Bairro Alto, em fevereiro de 2006.

A oportunidade de mudança deveu-se a uma proposta de Natxo Checa, um dos fundadores da galeria e amigo dos fundadores da Ler Devagar.

José Pinho afirmou ao Público, em abril de 2006, que foi necessário que a livraria se adaptasse “não só ao espaço, bastante mais pequeno, mas também à própria filosofia da ZDB, uma galeria direcionada para as artes performativas”. O objetivo dos fundadores da livraria foi reproduzir o espaço inicial numa versão miniatura. Apesar de solucionar a situação, o primeiro local da Ler Devagar provocou, segundo João Seixas, uma certa “nostalgia do espaço-mãe”.

Na época, a ZDB (fundada em 1994) já era relevante no meio da literatura, arte e cultura. Atualmente, mantém-se como galeria de arte e de música alternativa, e destaca-se como espaço cultural de referência.

A janeiro de 2007, por falta de espaço na ZDB, a Ler Devagar inaugurou uma outra loja na Rua da Rosa, também no Bairro Alto. Assim, ocupava duas instalações em simultâneo: a ZDB (com livros de arte e cultura) e o espaço na Rua da Rosa, onde, de acordo com o noticiado pelo Jornal de Notícias no dia 20 de janeiro de 2007, os responsáveis queriam realçar os debates e os eventos característicos da livraria.

Duas livrarias, uma só morada: a passagem por Braço de Prata

Motivados pela falta de espaço, os fundadores da Ler Devagar procuraram outra casa para os livros. Em 2007 transitam para a Fábrica de Braço de Prata, antiga fábrica de armamento e material de guerra.

A mudança obrigou a uma parceria com a Eterno Retorno (livraria de filosofia). Em entrevista, Nuno Nabais, fundador da livraria de filosofia, afirmou que a Ler Devagar, ainda com o objetivo de ter livros até ao teto, “esteve a ocupar três salas que, entretanto, foram remodeladas e se chamam Sala Saramago, Prado Coelho e Kafka”. A ideia era a Ler Devagar usufruir de uma área específica, enquanto a Eterno Retorno explorava as outras.

Atualmente, a fábrica funciona como centro cultural e inclui uma livraria, galerias de arte, salas de cinema, teatro e de espetáculos musicais.

Ler e pedalar: a última morada

A estadia da Ler Devagar na Fábrica foi problemática, porque o espaço era gerido em conjunto. As duas livrarias tinham, segundo João Seixas, “visões diferentes do mundo, dos livros, e do que deve ser um centro cultural”. A incompatibilidade ditou a separação das livrarias, que se efetivou com a transferência da Ler Devagar para as instalações da LX Factory (Alcântara) onde se mantém até hoje.

Antes de ser o centro cultural e artístico atual, o espaço era explorado por um conjunto de fábricas que contribuíram para o desenvolvimento industrial da cidade no século XX. Em 2009, os donos decidiram promover o espaço de forma moderna e convidaram a Ler Devagar para se instalar no edifício abandonado da antiga Gráfica Miranda.

O espaço sofreu obras durante cerca de 9 meses e foi inaugurado a 23 de abril de 2009, Dia Mundial do Livro. Manteve-se, porém, a máquina onde se produziam jornais. As instalações, segundo João Seixas, iam ao encontro daquilo que queriam para a “cidade do futuro”: “multifunções, como a cidade”. Com mais espaço para eventos, debates e arte, a Ler Devagar voltou a ter uma grande afluência de pessoas e, para Seixas, “foi quase como se fosse o princípio, há 20 anos no Bairro Alto”. Considerada, pela publicação americana Flavorwire, uma das livrarias mais belas do mundo, a Ler Devagar é hoje um dos centros culturais mais importantes da cidade de Lisboa.