Danuta Wojciechowska nasceu no Canadá, licenciou-se em Design de Comunicação em Zurique e tirou uma pós-graduação em Educação pela Arte em Inglaterra. Combinando a literatura e a arte, fixou-se em Portugal, fundou o atelier Lupa Design e concretizou o sonho de ilustrar livros infantis. Em 2013, recebeu o Prémio Nacional de Ilustração e um ano depois foi-lhe atribuída a distinção “Mulheres Criadoras da Cultura”. A Ler Devagar foi essencial para a artista dar o primeiro salto.

Por Bebiana Martins

Sala do Atelier Lupa Design. Danuta Wojciechowska ilustrou mais de 60 livros, jogos e manuais escolares.

No atelier, rodeada pelas suas ilustrações coloridas e experiências plásticas, Danuta falou com entusiasmo das imagens que lhe preencheram a vida, mostrando que podem ter uma dimensão mais profunda do que se possa pensar à primeira vista.

O que a fez vir para Portugal e fundar cá o atelier?

O meu marido é português. Já o tinha conhecido quando tinha estado cá de férias. Ele, entretanto, foi viver para a Suíça e estudou no Instituto Jung. Pensámos que o projeto para vir para Portugal era fazermos um curso em educação pela arte, que fizemos em Inglaterra, com uma perspetiva de fundar uma escola em Portugal. Depois chegámos cá e foi tudo muito difícil. Mas não perdi esse sonho de ligar a arte à educação e encontrei nos livros um veículo que se infiltrou muito bem nas escolas. É uma maneira de uma pessoa com a vertente das artes entrar nesse meio, onde não há forçosamente uma porta aberta. Mas, para os livros, as pessoas abrem a porta. Por outro lado, o que também me fez vir para cá foi o facto de haver muito espaço para desenvolver este tipo de trabalho, a educação e a arte ligada ao ensino. Havia pessoas com quem já trabalhávamos à distância que tinham vontade disso. Acho que foi um bocadinho a vontade das pessoas que me puxou para cá. E que me puxa para as escolas.

Foi essa a primeira vez que pensou em ilustrar livros infantis? Ou já tinha esse interesse?

Era um sonho antigo, mas pensava que não seria possível de concretizar porque seria preciso ter o trabalho conhecido e ter o investimento das editoras. E eu também não sou de cá, por isso pensei que isso podia ser algum tipo de impedimento.

E como caracteriza a sua pintura e as suas ilustrações? Consegue explicar o seu processo criativo?

A primeira coisa que me motiva é uma ideia, é uma necessidade, é algo que sinto que faz falta, uma vontade interior de corresponder. Uma vez que tenho a motivação, encontro as cores. São as emoções transmitidas em luz. Por isso, a cor é a minha ferramenta principal. Não sou uma pessoa tão ligada ao traço, à linha. A composição é o meu elemento fundamental. O meu desenho destina-se a encontrar energias, forças e elementos. Através das cores, enquanto ilustradora, posso transmitir uma experiência muito profunda, que não passa forçosamente pelo intelecto, mas sim pela emoção. Faz parte de uma experiência muito profunda e arcaica em nós. Por isso é que gosto muito de trabalhar com a cor e também com alguma difusão na ilustração. As transições de cores abrem espaço para a imaginação, em contraste com as linguagens que muitas vezes se usam hoje em dia, que são todas formadas e acabadas. Nestas ilustrações eu procuro comunicar com a cor, dar também espaço para o leitor se perder nessa indefinição. É um espaço para brincar ou para se projetar lá para dentro.

Esboço e ilustração final do livro O Beijo da Palavrinha

Já colaborou com vários escritores, certamente todos muito diferentes entre si. Como é que se adapta a cada um e a cada história, nas suas ilustrações?

Os escritores com quem eu mais gosto de trabalhar dão-me bastante liberdade. Gosto também de mostrar o work in progress, para saber se estou a refletir bem aquilo que me mandam. A ilustração não é igual ao texto, mas tem que estar ligada a uma ideia, a uma intenção, que é o fio condutor da obra. Gosto dos escritores que me dão essa liberdade. Nos últimos tempos, com a autoria que tenho deste livro [Água Doce, Fluir com o Rio], tenho trabalhado em colaboração. São trabalhos de equipa e isso é uma coisa que me estimula muito, além de fortalecer o resultado final.

Falou há pouco das apresentações nas escolas. Em que é que consistem? E por que razão as faz com tanta regularidade?

As sessões com as escolas são muito diferentes. Estou um bocadinho a conversar com os professores, para saber o que é que eles querem. Por vezes também converso com os alunos, mostro o livro para perceber a forma como o veem. Para mim, a melhor maneira de compreender o modo como interiorizaram o livro é ver como é que eles reagem plasticamente, graficamente ou por escrito. Quando começam a interagir com o livro, a atividade ganha mais raízes e isso ser trabalhado pelos professores, no sentido de descobrir as várias vertentes do livro. É algo de que gosto muito nas artes, a liberdade de expressão, e sobretudo de dar essa ideia às crianças. Elas estão por vezes muito formatadas na escola e precisam do seu espaço de criatividade. Por outro lado, há crianças que podem ter outras capacidades além do estritamente racional. O trabalho de arte e expressão nas escolas é por isso muito inclusivo.

Na sua opinião, as ilustrações têm um papel tão importante como a escrita, nos livros infantis?

Sim. Hoje comunicamos cada vez mais visualmente, porque a tecnologia nos permite isso. Há uns anos atrás não era tão habitual. No livro ilustrado, cada ilustrador tem a possibilidade de desenvolver num espaço privilegiado uma pequena obra de arte com algo da sua linguagem. Tento acompanhar a escrita, mas às vezes faço umas pequenas coisas contraditórias na ilustração, só para provocar o pensamento crítico e assim estimular a criatividade da criança. A imagem e o texto são duas linguagens diferentes, mas no livro ilustrado existem ao mesmo tempo. Na maior parte da comunicação, hoje em dia, também privilegiamos essa complementaridade.

À medida que as crianças vão crescendo, os livros vão tendo cada vez mais texto e menos ilustrações. Acha que as ilustrações deixam de fazer sentido, ou deixam de ser tão importantes nas idades mais avançadas?

Não sei. Mas tive uma experiência curiosa, há pouco tempo, quando estávamos a lançar o livro A Água e a Águia. Fiz uma pequena tournée em Portugal com o Mia Couto. Foi uma experiência extraordinária. Num dos sítios, onde estariam 400 pessoas ou mais, foi fantástico perceber que muitos dos leitores das minhas ilustrações e dos livros adoravam ler as imagens e as ilustrações. Teria tendência para pensar: “as crianças a partir de uma certa idade não querem imagens”; ou “os adultos não precisam de imagens”. Mas naquele caso, como é um livro para todas as idades, fiquei surpreendida com o número de leitores adultos de livros ilustrados. No entanto, muitas crianças na escola, quando começam a crescer, têm o hábito de não continuar a cultivar a leitura das imagens. Ou quando um livro tem imagens põe-se na prateleira das crianças. Acho que há aqui com um preconceito muito grande, de que um livro ilustrado se destina a uma determinada idade e que as crianças mais velhas já não precisam da imagem. 

E acha que a imagem faz sentido em todas as idades?

Não são todas as imagens. Mas há muitas imagens podem ser para todas as idades. Eu gosto de ler texto, mas gosto imenso de ler livros com ilustração. É tomar um banho de arte e literatura. A cor tem por isso uma dimensão de sonho e de poesia.

Comemoração dos 20 anos da Ler Devagar: Danuta recorda a importância da livraria para a sua carreira
“A Ler Devagar foi fundamental para mim. Tinha acabado de ilustrar O Gato e o Escuro e tinha também um jogo de cartas que estimula as crianças a contar histórias. Estava a sair da área da comunicação pedagógica e a começar a ir para a ilustração de livros, no ramo editorial. Estava num momento de transição e estava a tentar fazer promoção do meu trabalho. Nessa altura [em 2003/2004] , a Ler Devagar ainda era na rua de São Boaventura, no Bairro Alto, e tinha um espaço muito simpático. Algumas pessoas que a conheciam disseram para eu lhes tentar mandar [o meu trabalho], porque eles tinham uma programação regular, uma coisa diferente todos os dias e todas as noites. Marquei uma reunião com o José Pinho [administrador da Ler Devagar] e ele mostrou-se muito recetivo. Fiz lá uma exposição, com cerca de 50 originais, com apresentação feita pela Ana Paula Guimarães e pelo Daniel Sampaio. Aquilo atraiu imensas pessoas, acho que foi uma espécie de nascimento para mim. Nessa nova vertente do meu trabalho, a Ler Devagar foi fundamental para o meu início de carreira.”

Nota: As imagens foram captadas aquando da entrevista e a sua utilização foi autorizada pela entrevistada.