Por Diogo Barradas

O livro não se limita às palavras que o habitam. Se o livro for um portal para outra dimensão, a capa é a sua moldura. Jorge Silva sabe-o bem, por estar neste mundo há tantos anos. Designer de comunicação, dedicou-se sobretudo ao design editorial e à direção de arte de diferentes publicações, com destaque para o jornal Combate e O Independente, bem como os suplementos Y e Mil Folhas, do jornal Público. Em 2001 fundou o seu atelier, “Silvadesigners”, que desde então soma projetos de sucesso. Foi, entre 2007 e 2010, diretor de arte do Grupo Editorial Leya onde encontrou “de tudo, desde o Saramago ao chefe Silva”. No mundo do design de livros, o seu atelier foi responsável pelas premiadas capas da coleção Bis, em 2008, bem como pelas mais recentes capas das obras de José Saramago, em 2014. Enquanto o atelier fervilhava, falámos com Jorge numa sala lateral. O homem que se diz colecionador tinha, nesta sala despojada, uma imensa prateleira repleta de livros de diversos tamanhos e feitios. É uma prateleira de consulta e inspiração, da qual se serviu vezes sem conta durante a conversa, para mostrar que, afinal, podemos julgar o livro pela capa.

A capa é o limiar entre o leitor e o livro. Como é trabalhar nessa fronteira?

É uma grande responsabilidade. É muito fácil culpar as capas pela má prestação comercial dos livros ou dos jornais. As capas dos jornais seguem um modelo editorial ou conceptual, que tem a ver com um determinado território de reconhecimento mútuo: é um compromisso com o leitor.

Os livros também procuram criar um conforto com os seus leitores habituais, seja em relação aos autores, aos géneros ou até a própria editora. Embora, no limite, a capa de um livro deva valer por si própria. Tem de jogar com os trunfos todos para poder convencer o leitor a comprar.

Todo o livro quer ter essa ambição de ser universal, mas isso não é verdade. Todos os livros têm um universo de leitores restrito. Um obscuro poeta terá sempre menos leitores do que um blockbuster de aventuras.

Procuramos fazer com que a capa seja justa ao universo de leitores que esse livro tem, mas, por outro lado, tentamos fazer o melhor possível dentro desses limites, com o desejo de fazê-lo chegar a toda a gente. O objetivo é vender o mais possível. Por isso, uma capa errada pode criar um sério prejuízo…

E que desafios surgiram quando trabalharam as capas de um autor implementado, como José Saramago?

O caso do Saramago é um muito particular, por ser um autor universal. Já tínhamos visto toda a espécie de capa para os livros dele, pelo que havia já alguma fadiga.

O desafio era difícil. Por isso, fizemos uma coisa rara no atelier, que é um concurso interno. Por acaso ganhou a minha ideia, que era a menos espetacular. A solução que apresentei era tipográfica, mas tinha por trás uma ideia emocional. Assim, convidámos escritores, amigos de Saramago, para escrever as suas capas. A ideia foi aprovada pela Fundação José Saramago, que sugeriu que não fossem só escritores, mas também arquitetos, artistas e músicos próximos do autor. Esta ideia bastante simples não se parecia com nada que já tivéssemos feito.

Estas capas são de alguma maneira o triunfo do design no capismo de livros. A situação era grave: o mercado estava inundado de Saramagos. Tratou-se, neste caso, de ter uma nova ideia sobre a mesma coisa. Esta abundância de livros dele no mercado significou que pudemos pensar as capas de um ponto de vista autoral do design, apesar de a tipografia em si não ter sido feita por nós, mas pelos amigos de Saramago.

Embora um dos mitos do capismo de livros seja a ideia de que a capa tem de contar uma história, essa expetativa pode ser um pesadelo para os designers. Mas as capas caligráficas dos livros de Saramago não contam nenhuma história.

Estas capas foram aprovadas imediatamente, pela primeira e única vez na minha vida profissional, o que nunca tinha acontecido. É aquilo que eu chamo o crime perfeito: o trabalho oficinal destas capas foi bastante duro, mas ninguém poderia dizer que não gosta da caligrafia do Júlio Pomar, por exemplo, que tipografou uma das capas.

Existe uma incompreensão das editoras em relação às linguagens do design?

Não necessariamente. Por vezes, o que existe é uma incompreensão do designer em relação às linguagens daquele género ou em relação às convenções das editoras. Não penso que de um lado estão os criadores, cuja liberdade e capacidade criativa é inesgotável, e do outro as editoras, com os seus objetivos comerciais, ou a estupidez dos autores. Na realidade, a indústria do livro em Portugal é tão precária que até mesmo os livros comerciais são feitos por amor, porque ninguém ganha dinheiro a fazer livros. Temos que compreender que essas tensões têm uma razão realista.

Há ingredientes imprescindíveis para uma boa capa?

Uma capa tem sempre a ver com o universo do criador. Senão, não conseguimos explicar por que raio é que um livro cujo texto original é do século XVII ou XVIII já teve 500 capas diferentes ao longo dos anos. As capas são diferentes porque as pessoas, em contexto de época ou de lugar, têm interpretações diferentes. No entanto, essa leitura tem de ser acreditada pelos outros intervenientes no processo: os editores, os autores e também os leitores. Se eu fizer algo interessante, mas que ninguém entende, estou feito! Mesmo que essa acreditação surja daqui a 100 anos, não serve: nós procuramos reconhecimento imediato.

Mas com que profundidade têm de conhecer a obra?

Esse é outro mito! Muitos designers fazem questão de ler, mas não é fundamental. Nos tempos que correm, com a pressa que temos, não há tempo para isso. Contentamo-nos com uma sinopse, mas, se falarmos com designers mais antigos, eles dirão que isto é uma heresia. Na realidade, o fundamental é um olhar dos artistas sobre o mundo.

A vossa importância para a venda da obra é fundamental. Sentem-se heróis silenciosos?

Silenciosos? É discutível. Às vezes fazemos algum barulho. Aquilo que nós fazemos acaba por fazer parte do todo.

Já falhámos encomendas. Quando lançamos as ideias no papel ou no ecrã percebemos que algo não bate certo. “Não era isto que eu queria”, pensa o cliente. Isso faz parte da nossa rotina. No geral, o nosso trabalho é vigiado. Também costumo dizer que não se pode confiar completamente nos designers, exatamente porque, quando um trabalho chega ao atelier, colocamos nele uma máquina de emoções. Até a disposição com que acordamos nesse dia é determinante. O pobre do cliente também está refém e, por isso, é preciso compreender o lado dele.

O que não pode estar de certeza na capa de um livro?

Podemos dizer que, à partida, certas capas não podem ter determinadas caraterísticas, mas isso é relativo. Uma capa cor de rosa tem uma carga simbólica muito forte, quer seja por preconceito ou hábitos culturais que variam. O designer tem de ter isso em conta. Não podemos fazer uma capa cor de rosa? Algumas destas capas do Saramago são cor de rosa, mas nesse caso é irrelevante. Noutros livros o leitor pode interpretar isso como um problema, independentemente daquilo que lá está escrito. Procuramos que o leitor se identifique com a capa, sem ter vergonha de a mostrar.

Toda a tralha que tens comunica com o exterior aquilo que és – e tu queres ficar bem no retrato. Seguramente queres fazer parte de uma tribo. Assim, o designer tem de adivinhar aquilo que vai na cabeça do leitor. O que preciso de fazer para ele comprar isto?