Desde a abertura da livraria Ler Devagar na LxFactory, Pietro Proserpio leva os seus visitantes numa viagem “no tempo e no espaço”, onde lhes dá a conhecer as histórias por trás dos seus “objetos cinemáticos”.

Por Sofia Camilo

Pietro Proserpio é o habitante mais antigo da livraria Ler Devagar. Mecânico e artista, sonhador e contador de histórias, são muitas aquelas que nos conta à medida que percorremos a sua exposição de “Objetos Cinemáticos” que ocupa o segundo piso da livraria, desde que abriu portas na LxFactory.

E como é que a Ler Devagar o encontrou? Pietro já construía os seus “objetos cinemáticos” há 25 anos, mas durante muito tempo teve medo de os mostrar aos outros. Um dia, isso mudou. Foi na televisão que ouviu falar da feira Craft and Design, que decorria no Jardim da Estrela, em Lisboa, e decidiu ir até lá mostrar o seu trabalho aos organizadores. Eles gostaram. Dali, foi andando de feira em feira, uma coisa “que dá um trabalhão dos diabos”, confessa o próprio. Numa delas, foi abordado por um francês “maluco, alto, todo desengonçado”, que deu uma especial atenção às suas “maquinetas”.

Esse francês era Michel. Fazia sapateado e dava aulas de concertina no Conservatório Nacional de Música. E, além disso, “tinha um espaço dele na Fábrica Braço de Prata”. Nesse espaço, Pietro acabou por fazer várias exposições, até se mudar para a LxFactory e se tornar residente permanente daquele espaço onde, segundo Michel, “as maquinetas ficavam muito bem”.

Uma história como a bicicleta – voadora

Pietro Proserpio nasceu em Itália, no ano de 1938, mas viveu a maior parte da sua vida em Portugal. Guarda memórias de uma II Guerra Mundial que também assolou o seu país de origem, memórias essas que, mesmo hoje, são difíceis de esquecer. “Ainda agora durmo com os lençóis em cima da cabeça porque me lembro do barulho dos aviões de guerra”, confessa.

Aos 11 anos, veio para Portugal com os pais, que eram industriais têxteis e pretendiam erguer uma fábrica de veludos no país. Contudo, Pietro nunca foi um homem dos têxteis. Mesmo na sua juventude, “não gostava de fios, gostava das máquinas” que os teciam. “É daí que vem a paixão pela mecânica”, garante.

Quem descobre a Ler Devagar dificilmente fica indiferente à bicicleta branca que se ergue apenas uns passos adiante da porta de entrada, bem no centro da livraria, que tem por pano de fundo uma parede infinita de livros e o ponto preciso em que as escadas metálicas que dão acesso ao primeiro piso se cruzam. O que a maior parte, se calhar, não sabe é que foi Pietro Proserpio, mecânico e inventor de histórias, quem um dia a quis pôr a voar.

“Uma vez, o Michel quis fazer uma exposição que chocasse as pessoas e encheu este piso [o segundo] de lixo. Quando a exposição terminou e retiraram tudo, deixaram ficar uma bicicleta toda ferrugenta. Eu olhava todos os dias para ela e uma vez pensei: ‘Bom… Vou pôr esta bicicleta a voar!’”, conta Pietro. “Puxei-a para baixo, nem sequer a limpei… Pintei-a toda de branco e assim ficou. Fiz-lhe um par de asas, fui ter com o José Pinho [sócio-fundador da livraria] e perguntei-lhe se a podia pendurar ali.”

Mesmo depois de ter a sua Bicicleta pendurada num local central da Ler Devagar, de cada vez que Pietro olhava para ela, sentia que “faltava qualquer coisa…”

Se já são poucos os que sabem que a icónica Bicicleta da Ler Devagar é uma criação – ou, melhor dizendo, uma “recriação” de Pietro – o que se calhar ainda menos pessoas sabem é que foi a esposa do italiano quem lhe acrescentou essa “coisa” que faltava. 

Pietro queria que a bicicleta pertencesse a alguém e, por isso, resolveu que queria acrescentar-lhe uma menina que pudesse andar nela. “A minha esposa formou-se em escultura na Faculdade de Belas Artes. Eu fiz um esquema do que eu queria e ela desenhou a Bicicleta com a menina.”

Pela mulher, companheira de uma vida inteira, apaixonou-se com apenas 14 anos. “Íamos os dois para o Liceu Francês e o Liceu Francês tinha uma camioneta que ia todos os dias buscar-nos e trazer-nos. Fazíamos a viagem juntos todos os dias”, conta, relembrando com carinho esses tempos.

Na altura em que pendurou a Bicicleta na livraria, recorda Pietro, houve quem lhe perguntasse: “Por que é que não pões a Bicicleta a andar para a frente e para trás?”. “Tu estás maluco(a). Alguma vez viste uma bicicleta a andar para a frente e para trás?”, era o que respondia sempre. Contudo, enquanto amante da mecânica e da locomoção que é, fazia-lhe, de facto, falta criar uma peça que pudesse executar esse movimento. Então criou o monociclo, “porque os monociclos andam para trás”, justifica. E daí veio o Sonhador.

“Se o nosso amigo chegasse à Lua, já não era um sonhador. Era o Neil Armstrong”

A cada vez que um olhar curioso se depõe sobre o Sonhador, suspenso no ar no seu monociclo, Pietro apresenta-o da mesma forma: “Aquele nosso amigo é o Sonhador, porque sonha ir à Lua com um chapéu-de-chuva”.

Este Sonhador usa, de facto, um chapéu-de-chuva. E anda para trás e para a frente em direção à Lua, que nunca chega a alcançar. Nesse percurso incessante, que começou nos primórdios da existência desta livraria na LxFactory, encontra outros elementos e personagens suspensas no ar, que fazem parte da sua história.  

“O Sonhador encontrou uma gaivota, também sonhadora, que quis ir com ele à Lua. Descobriu então um navio fantasma do Capitão Gancho”, prossegue Pietro. “Na nuvem apareceu um anjinho…porque os anjinhos gostam muito dos sonhadores.”

Por que é que o Sonhador nunca chega à Lua? Pietro tem sempre resposta pronta para essa questão: “Se o nosso amigo chegasse à Lua, já não era um sonhador. Era o Neil Armstrong.”

É com o Sonhador que Pietro Proserpio começa a narrativa da sua exposição e é com a sua história que nos convida a mergulhar no seu universo criativo de máquinas, enredos, magia e movimento.  Entre monstros e insetos, cidades em miniatura e ventiladores, luzes, sons e materiais reutilizados, as várias peças criadas por Pietro partilham um ponto comum: o seu elemento cinemático.

Histórias que fazem parar o tempo

No campo da Física, “cinemático” é relativo ao movimento mecânico, assim como “cinético”. Na obra de Pietro, encontramos também esta significação, uma vez que todas as suas peças são mecânicas e vivem do movimento gerado por peças, roldanas, circuitos e pela eletricidade.

Contudo, as peças deste “inventor” da Ler Devagar não são “cinemáticas” apenas por causa da Física. “É arte cinética que conta histórias, vai buscar histórias diretamente aos filmes. ‘Cine’ dos filmes e “cinética” da arte cinética, da arte em movimento. Cinemática.” A presença da sétima arte no trabalho de Pietro verifica-se muito em peças como Tempos Modernos (na fotografia), uma referência a um dos clássicos mais célebres com Charlie Chaplin, e ainda numa outra, feita na base de uma referência ao filme Mon Oncle, do realizador francês Jacques Tati.

Surpreendentemente, Pietro revela não ser, na verdade, um grande cinéfilo. Do cinema, o que gosta verdadeiramente é “da parte de contar histórias”.

No entanto, confessa gostar muito de fazer reciclagem – o que se verifica ao longo de toda a sua exposição onde, na verdade, todas as peças foram construídas a partir de peças, objetos e materiais a que, um dia, Pietro quis dar uma nova vida. É o caso do monstro Lope, que foi feito a partir de um guarda-chuva partido (entre outras coisas).

Pietro diz que todas as peças têm nome, porque “todas têm uma história”. Contudo, nem sempre foi assim. O pequeno e desajeitado “monstrinho” Lope apenas teve direito a nome mais tarde. “Há uns tempos, veio aqui um grupo de raparigas espanholas, e uma delas perguntou-me como se chamava o monstro.” conta Pietro. “E eu disse que ele era tão feio que não tinha nome. Então ela disse: ‘Chame-lhe Lope.’ Eu perguntei: ‘Lope porquê?’. ‘É o meu chefe’, disse ela.” E assim ficou o monstro batizado.

As histórias contadas nas palavras de Pietro Proserpio, muitos o dizem, “fazem parar o tempo” na sua exposição. Talvez por isso, uma das temáticas mais presentes no seu universo inebriante seja o tempo. Para Pietro, “o tempo é tudo e não é nada”.

Sobre o processo criativo para compor todo o seu mundo de magia, histórias e mecânica, Pietro diz que o mais importante “são as ideias”.

“As ideias aparecem-me de manhã”, afirma. “Eu acordo sempre às 7:30, fico na sorna, e é nessa horita que aparecem todas as ideias que eu depois desenvolvo.”

“Como nascem as peças? Há dois ou três caminhos. Imagino um movimento mecânico e executo-o. Quando acabei de ter o primeiro movimento mecânico, começo a imaginar a história. A partir desse momento, é a história que conduz a construção da máquina. Ou então decido fazer uma peça sobre determinado tema e a partir daí vou escolhendo as peças para fazer essa máquina.” Um terceiro caminho é encontrar uma peça qualquer e utilizá-la para fazer uma máquina. Pietro coloca a peça à sua frente e começa a imaginar como é que a vai encaixar e como pode desenvolver a sua produção.

“Um ventilador faz vento e o amor é como um vento quente no deserto”

Um bom exemplo de uma obra que começou, precisamente, pela peça em si é aquela com que Pietro escolhe terminar a sua exposição e aquela a que, por teimosia e contradição, gosta de chamar “Amor”.

A ideia veio de uma situação em que um visitante lhe disse que as suas peças, apesar de interessantes, não faziam nada de útil. “Como em Portugal faz um calor de morte, eu fiz um ventilador. Podem crer que não há nada mais útil que um ventilador aqui”, diz.

Contudo, aquele que expõe na livraria Ler Devagar é já o segundo ventilador que fez – o primeiro foi logo vendido. “Fiquei traumatizado porque foi a primeira vez na minha vida em que fiz qualquer coisa de útil. Tive de lhe dar um nome oposto. E o nome mais oposto que encontrei em relação ao ‘útil’ foi o ‘amor’”, conta. Mas era preciso arranjar uma história que suportasse o facto de estar a chamar “Amor” a um ventilador.

“Um ventilador faz vento e o amor é como um vento quente no deserto. São os beijos que o vento dá nas velas dos barcos. E por vezes arrefece, como o vento do norte”, justifica Pietro, adiantando que no primeiro dia em que apresentou a peça com esta história, uma senhora quis logo comprá-la. “Eu acho que ela comprou a história, mas como levou a coisa, por mim tudo bem”, brinca.

Pietro tem a perfeita noção de que não se vive para sempre e assegura que, com a idade que tem, já chegou a preocupar-se com o destino das suas peças, que ama tanto mas, ainda assim, entre as quais não distingue nenhuma favorita. “Quando te casares e tiveres filhos…se te perguntarem qual é o favorito o que é que tu respondes? Que são todos, não é?”, diz, encolhendo os ombros.

Quando lhe perguntam “É feliz aqui?”, a resposta de Pietro é simples, mas clara. “Como toda a minha família diz, sou um homem cheio de sorte. A minha filha até diz que nasci com o cu virado para a lua!” diz, acrescentando: “A minha grande sorte foi ter encontrado a Ler Devagar, porque o contacto com a juventude ajuda-nos a não envelhecer tão depressa”. E, para ele, “estar aqui é esquecer que o tempo existe”.